11º campeonato · Diálogo
O sonhado diálogo jamais aconteceu. Presa em seu monólogo infinito, ela ocupava todo o espaço, e meu adeus passou a habitar o silêncio do nunca mais.
11º campeonato · Diálogo
O sonhado diálogo jamais aconteceu. Presa em seu monólogo infinito, ela ocupava todo o espaço, e meu adeus passou a habitar o silêncio do nunca mais.
11º campeonato · Fotografia
Fotografei a casa vazia. Na imagem do celular, cinco pessoas em trajes de época sorriam para mim.
11º campeonato · Bolso
Guardava, por hábito, o mundo no bolso.
Nem moedas, nem chaves. Levava restos de vento, nomes que quase se apagaram e silêncios barulhentos.
Toda noite, esvaziava sobre a mesa e escolhia o que ainda devia levar no peito.
11º campeonato · Banda
Carnaval. Praça cheia, banda animada no coreto.
Esbarraram-se e riram, sem motivo.
— Acho que a vida quis isso.
Por um instante, tudo parou.
Sobraram apenas eles, e a melodia, que se repete há cinquenta anos.
11º campeonato · Ficção
Falei que o livro era de ficção.
Soa mais leve que memória.
Mas só quem chegou ao fim percebeu: era um pedido de socorro.
11º campeonato · Cobre
Vendeu o cobre.
Pagou a conta.
À noite, a casa ficou escura demais.
11º campeonato · Cobre
Carregava o anel de cobre como quem carrega um perdão não dito.
Pensou em devolvê-lo, muitas vezes.
No dia em que finalmente o tirou do dedo, entendeu: o que pesava nunca foi o metal.
11º campeonato · Melancia
A faca deslizou na melancia madura.
O suco escorreu pelos dedos dela, lento, quente.
Ele observava em silêncio.
Certos verões pedem dentes e língua.
11º campeonato · Ano
Guardei as promessas de ano novo na gaveta.
O mundo trocava de estação.
Eu permanecia inverno.
11º campeonato · Ano
Esperei o ano inteiro.
Suportei vento, sol e chuva.
Em dezembro, veio.
Deitou-se sobre mim.
Eu era a praia.
11º campeonato · Toa
Conversa à toa.
Riso sem promessa.
Era leve.
Quando percebi, já havia ritmo.
Virou toada. Fiquei.
11º campeonato · Toa
Esperei anos para provar que não foi à toa.
Foi.
Mas virou conteúdo.
11º campeonato · Toa
Repeti por anos que não foi à toa.
Que ela só precisava de um tempo.
Hoje reli as cartas.
Nenhuma tinha sido escrita.
11º campeonato · Umbigo
Apertou o umbigo, procurando colo no próprio corpo. Era só cicatriz. A vida não volta.
11º campeonato · Umbigo
- Você só enxerga o próprio umbigo.
- E você prefere o das outras.
Ele abriu a boca, mas não encontrou palavras.
Partiu.
11º campeonato · Umbigo
Colou o ouvido no umbigo dela. Uma voz infantil sussurrou: “Me deixa voltar!”
Ele estremeceu. Ela paralisou de medo.
Não restou ninguém para contar… exceto você, caro leitor.
11º campeonato · Moeda
Entreguei a moeda ao barqueiro. Não vi seu rosto. O barco deslizou sozinho sobre as águas. Vozes sussurravam meu nome. Cada palavra se tornava sombra. Ali, o preço não era o óbolo, mas a minha voz.
11º campeonato · Moeda
Choro - Contava moedas, enquanto contava os dias que faltavam para o mês acabar, para o pão do filho chegar, para que a fome não engolisse a casa inteira.
5º campeonato · Cavalo
Carnaval. Ousou trocar a vestimenta de cavalo pela de unicórnio. Finalmente se encontrou. Realizado, não saiu mais da fantasia.
5º campeonato · Cavalo
Olhou. Não gostou muito não, mas calou. O cavalo era dado.
5º campeonato · Cavalo
"Ca-va-lo! Dente de cavalooo!". Risos. As palavras das outras crianças machucaram, e ainda assim, sorriu, disfarçando. O aparelho ortodôntico aprisionou durante anos a vergonha sentida naquele dia distante, no colégio. Jamais esqueceu. Formou-se em Odontologia. #bulliyng
5º campeonato · Bolinha
Tinha cinco anos. Soprava bolinhas de sabão, na pracinha perto de casa. Magia translúcida, quase promessa de felicidade.
Acordou com o despertador.
Tateou a mesinha em busca das bolinhas de hoje, que garantiriam mais um dia de trabalho, olhos vidrados na realidade. Caminhoneiro.
5º campeonato · Palhaço
Desenvolveu coulrofobia, após o traumático divórcio.
Entrava em pânico, sempre que via um palhaço. Medo, pavor.
Aconselhada pelo psiquiatra, queimou todas as fotos do ex.
5º campeonato · Palhaço
A maquiagem, borrada. O sorriso, agora inexistente. Uma lágrima furtiva, talvez. Era o reflexo que via, no pequeno espelho do banheiro do circo.
Palhaço. Amanhã voltaria a alegrar as pessoas, e as luzes brilhariam por alguns momentos, na alma daquele homem triste e solitário.
5º campeonato · Palhaço
Tempos difíceis. O maior problema já nem era o circo pegando fogo, mas a quantidade de palhaços, aplaudindo.
5º campeonato · Marca
Conseguiu superar a dor. A marca, no entanto, persistia. Um dia desistiu de disfarçar e transformou todo o resto em troféu. Mais uma cicatriz transmutada.
5º campeonato · Baralho
Cartomante. Sábia e misteriosa, baralho nas mãos. Ninguém desconfiava, mas era ela, quem mais precisava de direção.
5º campeonato · Baralho
Abriu o baralho, outra vez. As cartas não mentiam nunca. Ele, sempre. Pediu o divórcio, finalmente.
5º campeonato · Cebola
Olhou a cebola sobre a tábua de madeira. Aos pedaços. Como eram iguais, pensou.
Enxugou as lágrimas na manga da camisa, fingindo para si mesma que era efeito do legume, e não da faca invisível, que insistia em cortá-la todos os dias, sem nenhuma piedade.
5º campeonato · Nota
Consulta médica. Alzheimer, o nome da doença. Entendeu bem. A filha chora. Tenta acalmá-la. Diz que está bem. No táxi, olha a mulher sentada ao seu lado. Nota que segura sua mão, fica irritado. - "Já disse, não sou seu pai! Me larga!". A mulher chora, outra vez, mas ele já pode não entender.
5º campeonato · Desejo
Clamou aos céus que todos os seus problemas desaparecessem para sempre.
O desejo foi atendido. A partir daquele dia, nunca mais foi visto por ninguém.
5º campeonato · Vazio
Ultimamente não tinha espaço pra mais nada. O vazio tomara conta de tudo.
5º campeonato · Vazio
O encantamento surgiu de primeira. A queda na real em seguida, ao perceber quão cheio de vazio era o interior daquele lindo corpo.
5º campeonato · Estrela
Estrelas vivas. Mortas. Assim somos todos, poeira de estrelas. Em ascensão, e as (de)cadentes. Todos iguais. Nem mais, nem menos.
5º campeonato · Estrela
"Estrela" - Crepúsculo. Luz e sombra, eu e tudo quanto sei desconhecer. Nem sempre a dor faz crescer, mas ensina. Nas esquinas da vida eu ainda espero por um sinal, enquanto tudo o que já não há de novo debaixo do sol esmaga, embriaga, consome - e ainda assim, liberta.
5º campeonato · Estrela
Lembrava, antes de sair de casa para trabalhar. Ajeitava o tecido no braço, com a estrela de seis pontas no fundo amarelo, e a palavra judeu, no centro. Um dia, cansado, esqueceu de pôr a identificação. Nesse dia saiu, para jamais retornar.
5º campeonato · Pétala
Refletia. Instante mágico, a vida. Alegria, dor, felicidade, tragédia. De repente, o fim.
Fez só um pedido. Em sua partida não queria lágrimas e tristeza. Era flor que desabrochou, coloriu, viveu. Foi tudo o que podia sonhar. Morreu. Voaria, agora pétala, por outros infinitos.
5º campeonato · Pétala
Chorou nas duas vezes em que recebeu flores. A primeira, na conquista. Rosas vermelhas. A outra, quando viu cada pétala caída ao chão, mortas como ela, após mais uma agressão.
5º campeonato · Pétala
Livida e em lágrimas, a jovem pétala despediu-se das irmãs. Desfalcava para sempre a flor. Vendida pela mãe a um coronel da região. Logo, não restaria pétala. Nem flor.
Somente, a dor.
5º campeonato · Corpo
Corria sobre a grama do parque. Ele atrás dela, cada vez mais perto.
Tropeçou e caiu. Sentiu sobre seu corpo o peso, os pelos, a respiração forte.
- Sai, Zeus, você conseguiu. Toma aqui a sua bolinha.
O cachorro, feliz pela conquista, sorria, realizado.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.