4º campeonato · Abóbada
Unindo partes
Era costureira sem máquina. Cerzia as feridas, aparava as farpas dos desalinhos, remendava as fendas deixadas pelos desajustes, enesgava cortinas contra os medos, alinhavava sonhos, plissava as dores das desilusões. E, da vida, ela tecia colchas de retalhos com todos os seus amores. Era minha avó...
4º campeonato · Abóbada
MOSAICO
Peles vermelhas, brancas, negras. Dos donos, invasores, escravos. Por séculos, nos gemidos das noites de dor e de amor, a aquarela entornou dentro dos corpos. Como por encanto, dessa alquimia de tons, saberes e sonhos, metamorfoseado, foi parido o couro tupiniquim. Obra-prima...
4º campeonato · Receita
DELINEANDO CERNES
Depois de fazer as tranças de pão doce, juntando o rescaldo de massa das bordas da gamela, cuidava em moldar os patinhos para os netos. Eram nove; todos ali, em sua volta, girando feito as galinhas do terreiro na hora do trato. Com as mãos, ela fazia o pequeno cordão, dava-lhe um nó, modelava o pescoço e a cabeça, o bico do bichinho, e salpicava bênçãos. Hóstia consagrada...
4º campeonato · Receita
RITUAL
Domingo era dia de macarronada com frango. Sem arrelia, cada um pegava o pedaço escolhido, eleito. A votação fora feita de maneira silenciosa, escrutinada pelos olhos zelosos da mãe. Respeitado o sufrágio, o sabor era sempre do mais abençoado banquete...
4º campeonato · Receita
Aprendendo...
− “Iscuta” a musiquinha nova, vovó!!!
“Hoji” a “cumida” é boa
Tem filé “di bódi”
Sopa “di musquitu”
Salada “di bigódi”
“I di sobimêsa”
Mocotó “di” lesma
“I di refigeranti”
Xixi “di elefanti”
Quem “falá”
Quem “falá”
“Cômi” a “cumida”
Um, dois, “têis”
Um, dois,” têis”
“catu, cincu”, seis.
“Shiu”!!!
(achei lindinho e falei: ai, que lindo! Ela gritou: “Comeu!!!!!!!!!!”)
4º campeonato · Receita
SEM PECADO
Perdida entre temperos de toda sorte, procurava o sabor da sopa que lhe era servida, lá, na infância. Puro devaneio. A alquimia não se completava. A inocência, ingrediente principal, ficara pelo caminho.
4º campeonato · Receita
ALUADO
Sempre enfiado em velhas e pesadas roupas que lhe cobriam o corpo todo, ele dizia ser soldado. No cinto, afivelado na esquálida cintura, ficava a única arma de ataque e defesa, um estilingue ensebado. Pregava como militante da fé. Leso, não percebia o escárnio, não se achava o bobo da corte. Inocente, era apenas o milico Bié. E batia continência...
4º campeonato · Receita
FRETEIRO DISSIMULADO
Não. Não era São Bernardo. Era vira-lata genuíno. E danado de sabido. Tião Canabrava inventou uma coleira que carregava um pequeno barril. Bastava amarrar um dinheirinho no costado daquela estrovenga e o bicho, afobado, rumava pro bar do Seu Maneco. Tudo combinado, a cachaça chegava na maior ligeireza. Nunca deu bode.
4º campeonato · Drama
AYLAN KURD
Vestindo a melhor roupa, saiu em busca da paz. No aconchego dos braços mornos do pai, faria a travessia. Fuga arriscada. Todos apinhados na rasa barcaça. De repente, os terrores do mar. Ele ouvia gritar seu nome, cada vez mais distante. No outro dia, o mundo inteiro viu seu corpinho na praia. E chorou...
4º campeonato · Drama
PESAR ETERNO
No silêncio da madrugada, da outra casa, parede-meia, conseguia ouvir desaforos sussurrados, gemidos de dor, choros abafados. No claro do dia, eu avistava um casal comum, tirante o olhar arisco da mulher. Da crueldade velada, da violência reiterada, nunca ouvi pedido de socorro. Apenas o estampido...
4º campeonato · Romance
REMINISCÊNCIA...
Foi num repente. Vindo de tão longe, trouxe, junto com um sorriso que fazia covinhas nas bochechas, o primeiro beijo. Mostrou mundos encantados, novos horizontes e sonhos. E, assim como veio, partiu. Era preciso, tinha de ser. Ou não ser. Até hoje, quando o pensamento desamassa o passado, o arrepio corre pelo corpo.
4º campeonato · Romance
Inventário concluído...
De lábios roxos, a boca cerrada e fria sepulta a tristeza das palavras duras, dos desagravos, dos impropérios. Encova, também, a doçura das juras de amor. Agora, o encanto do primeiro beijo, esse, não. Você não levará. Ficou tatuado em mim.
4º campeonato · Romance
FINGIDOR...
Garboso, sagaz, cortês, possuidor de lábia fagueira, era um típico conquistador. A lisonja exalada virava obsessão. Pobres mulheres. Em tempos remotos, dizia ser corretor. E era. Em cada praça, vendia ilusões e comprava todos os sonhos. Mercador de corações. Dos calotes, muitos rebentos eram deixados pelo caminho. E muitos nem nasceram...
4º campeonato · Fantasia
DESPERTANDO DE UM SONHO
As luzes coloridas refletiam nos olhinhos inocentes. Estava imersa naquele encantamento, fascinada. As mãozinhas, coladas na vitrine iluminada pela decoração de Natal, suavam de tanta excitação. Olhava tudo, imaginava, flutuava. Ficou assim por minutos, até ouvir o chamado do pai: “Vamos logo, não podemos perder o lugar debaixo da marquise!”.
4º campeonato · Fantasia
TERNURA PALIATIVA
Enquanto retira a fantasia, o palhaço chora. Pelo rosto, ainda pintado, lágrimas dão escape à angústia assimilada daqueles rostinhos carentes, dos corpinhos frágeis dispostos na alvura da enfermaria. Lá, precisa ser forte, engraçado, aflorar risos. Por minutos, dribla a doença, vira remédio.
4º campeonato · Fantasia
DE LAGARTA A BORBOLETA
Era a mulher mais bonita do lugar. Olhada de través, arrancava suspiros maliciosos dos homens e aflorava a vaidade dormida das fêmeas. Meretriz, além da paga em dinheiro, deliciava-se com a certeza de que, nas noites, povoava pensamentos e transformava os castos leitos da vila em pecaminosas alcovas...
4º campeonato · Fantasia
A ENCENAÇÃO DEU RUIM...
− Vovó, “vamo bincá di” boneca?! Eu “sô” a “Daculaura i” você é a Lobinha, tá bom?
− Tá bom...
...
− UUUUUHHHHHHHHHHHHH!!!!!!
− Vovó, você “num tá pestandu tenção” na “bincadêra”! Assim “num” vai “dá”!!!
− Uai, o que foi?!
− “Ólia” lá fora!!! Você “num tá vendu qui tá” um baita sol?!
− Claro que tô vendo!!!
− “Intão, “pur quê” você “tá fazendu êssi barúlio”?!
−Uai, a Lobinha não uiva?!
− Vovó “du” céu! A Lobinha só “fáiz UUUUHHHHH di noiti, cando” ela vira loba “i” vai na montanha “oliá pá” lua,” intendeu”?!
− Ah! Entendi...
4º campeonato · Fantasia
“A VIDA DA PORTA-ESTANDARTE”
Era do último bloco, do último dia, atrás da última escola. Metida no uniforme laranja, o escovão como estandarte, pisava na avenida. Com o som da bateria na dispersão, distante, sambava rodopiando feito porta-bandeira. Feliz, chorava. Sabia que a mãe, de algum cantinho do céu, via e se orgulhava do feito daquela “margarida”...
4º campeonato · Fantasia
REVIRANDO OS TEMPOS...
− Vovó, eu “tô insaiando pá apesentação, i” a gente canta aquela musiquinha “qui” fala assim, ó:
“eu tenho um coração,
“cansadu di choráááá”
A “fécha du” amor
Só “táiz ambústia i” a “dôôôôr”...”
- Você “conhéci”, vovó?!
4º campeonato · Fantasia
DELICADEZA...
− Maria Santíssima! Então o meu ronco é forte, faz um barulhão danado?!
− Não, vovó!!! Eu “num” falei isso! Eu falei “qui cando” você “dórmi”, você “fáiz” um “barulinho”... “Num” é um “roncão qui nem u du” vovô, “u” seu é “igal” aquele “barulinho qui” a “genti fáiz cando tá enchendu bixiga, sábi”?!
4º campeonato · Fantasia
OUVIDINHO TREINADO...
− Vovó, “achu qui” é “u” vovô “qui tá” chegando!
− Uai! Como é que você sabe?!
− “Tô iscutandu u subio" dele...
4º campeonato · Fantasia
CAMUFLANDO...
Isis cantando...
“Amor sem “bejinhu”
“Buchecha” sem “Caudinho”
“Sô” eu, assim sem você
Circo sem “paliaço”
“Namoru” sem “amassu”
“Sô” eu, assim sem você...”
− Vovó, você já “expicô qui Buchecha i Caudinho” era uma “dupa qui” cantava, “mais, u qui” é “namoru” sem “amassu”?!
− É o mesmo que namoro sem ABRAÇO, minha flor!!!!!
(misericórdia, será que colou?!)
4º campeonato · Fantasia
Sempre fica o perfume...
− Vovó, você “mi” chama “di neguinha fulô, i” lá na “iscóla”, "ôto" dia, a "pofessora colocô" uma musiquinha “qui” fala: "pisa na fulô, pisa na fulô..." − "Lembei di” você, vovó...
4º campeonato · Fantasia
APARENTE CONTRADITA
− Nossa, vovó!!! “Comu” você gosta dessa música, né?!
− Adoro!!! Você não gosta?!
− Eu gosto, “mais u nomi” dela é “muuuuuito istanhu”! “Vélia” Infância, você acha “qui pódi”?! “Si” é infância “intão num” é “vélia”, uai!!!
(um dia, ela vai “intendê”...)
4º campeonato · Fantasia
QUADRIGÊMEOS...
− Vovó, a mamãe “tava mi expicando qui cando” eu era bem “piquinininha”, na barriga dela, a minha “cumidinha entava” pelo “bigo”! Eu comia pelo “bigo”, vovó, você acha?!
− E é verdade! O alimento ia pelo seu umbigo...
− Aí ela “mi mostô” uma “mulér qui” teve “catogênios“! Imagina “qui tabálio” era “levá cumidinha pá cato bigos”, vovó?!
4º campeonato · Fantasia
DOÇURA LÓGICA...
− Vovó, “u cocozin” da borboleta deve “sê” bem “cherosin”, né?
− Por que você diz isso?!
− Uai, vovó, ela só “comi” florzinha!!!
4º campeonato · Fantasia
CRESCER DÓI...
− Dureza, vovó! Amanhã é dia da Tia Bel...
− Verdade?!
− “Num” tem “jeitu”! Meu “dentinhu tá” mole “i num” cai... “U ôto”, você “lemba”?! A mamãe “tirô, mais dueu seti “minutu”!!! Agora ela “num qué tirá”, disse “qui” dá “agunia”!!!!!
(ôôôô dó...)
4º campeonato · Fantasia
ACALMANDO O ESPÍRITO
− Isis, tá na hora de trocar o brinquinho! Tá muito pequeno!
− Não, vovó, “inda” não.
− Por quê?
− “Purquê inda num isquecí” da dorzinha desse aqui!
− Não, Isis, não vai furar de novo, é só trocar o brinco!
− Vovó, a mamãe já “ixpimentô tirá”, “mais inda num tô peparada”...
4º campeonato · Fantasia
SIMPLES, SIMPLÍSSIMO, SIMPLÉRRIMO...
− Vovó, na aula passada, a professora “insinô u usu” da vírgula, du pontu, du pontu i” vírgula, “dus” dois “pontus, du pontu di” interrogação “i du pontu di” exclamação!
− Nossa Senhora, complicado, né?!
− Nada, vovó, é só “intendê qui” cada “símbolu” tem um “significadu específicu”, só “issu”!
(misericórdia...)
4º campeonato · Fantasia
CAUTELOSA...
− Vovó, lá “nu círcolo” tinha uma moça “cum vestidu di bainarina”, “liiiiiindo”, “i” ela “equilibava” as “coisa nu” nariz!!! Você “aquedita”?! Fui “tentá fazê” lá “im” casa... “Inda” bem “qui u cópu” era “di pástico”...
4º campeonato · Fantasia
JUNTANDO OS PELOS...
− Vovó, “cando” a mamãe “num” tinha “eu i” nem “u” Tutu, ela “morô” numa casa “qui” tinha “têis gato”!!! Você “sábi qui” ela “aaaama bichinhu”, né?!
− É, eu sei...
− “Intão”, um dia a “impessora” dela “parô di funcioná, i” ela “levô pá arrumá”... “U môçu qui consertô falô pá” ela “qui u tantu di” pêlo “qui” tinha “dento da impessora”, dava “pá fazê” um gato!!! Você acha?! “Num dá pá fazê” um gato, né, vovó?!
4º campeonato · Fantasia
METAMORFOSEANDO...
− Vovó, “ólia qui interessanti”: eu gostava “di bincá cu’a Bárbi”, agora eu “góstu di bincá cu’a Monsterrái”; eu gostava “di” rosa “i” agora eu “góstu di roxu”; eu gostava “di doci di” banana “i” agora eu “góstu di chocolati”; a minha “futa peferida” era mamão, agora é banana!!! Eu “tô diferentandu”, né, vovó?!
4º campeonato · Fantasia
SERÁ????????
Na piscina...
− Vovó, “pur quê” você fica “batendu” as pernas “dessi tantão”?!
− É exercício pra emagrecer, uai!
− “Num dianta”, vovó... Você “num” viu na televisão “qui’a” pessoa “pecisa suá pá imaguecê”?! “Dento” da piscina “num dá pá suá”, né, vovó?!!!
...
4º campeonato · Fantasia
TENTANDO EXPLICAR...
Na piscina:
− Vovó, “ólia”!!! Aquelas duas “libélolas tão gudadas”!!!
− Não, Isis, é uma libélula grande...
− “Num” é, vovó! São duas “gudadas, fáiz pempo qui” eu “tô vendu” elas “i” elas “num disgudam”!!!
− Então elas devem estar passeando de mãos dadas, namorando...
− É. “Dévi sê issu”...
...
4º campeonato · Fantasia
UM ALÍVIO...
− Vovó “du” céu!!! Você “num tá vendu qui” a linha “tá muitu longi” da “gúlia”?! “Fáiz” um “pempão qui” você “tá tentandu infiá” na “gúlia”! Assim você “num” vai “acertá” nunca!!!
− É, tá difícil... Não tô enxergando direito e o buraquinho é muito pequeno, uai!
− “Vamu fazê” assim, vovó: eu “infio” a linha “nu buraquin” da “gúlia, i cando” a linha “saí du ôto ladu”, você puxa, tá bom?!
...
(a parceria vem dando certo! kkkk)
4º campeonato · Fantasia
NINGUÉM ENGANA A BICHINHA...
− Minha flor, eu posso colocar um pouquinho de cenoura ralada no seu arroz?!
− Não, vovó, eu “num góstu di cenôra”, você “sábi”...
− Mas eu fico preocupada, cenoura faz bem!
− “Num pecisa ficá peocupada”, vovó, eu já vi muitas “vêces cenôra camufada” na minha “cumidinha”. Eu “façu di” conta “qui num” vejo “pá” mamãe “num ficá tisti”, “mais” tem “cenôra” até “nu fanguinho du” pastel!!!
4º campeonato · Fantasia
IDADE DA INOCÊNCIA
Com apenas três aninhos, a netinha pergunta:
− Vovó, quantos anos você tem?
− 62...
− Nossa! É muito caro, né?
4º campeonato · Fantasia
PROBLEMA RESOLVIDO!!!
− Florzinha, essas embalagens iguais de shampoo e creme me deixam doida! Sem óculos, não consigo saber qual é uma e qual é outra?!
− “Simpes”, vovó!!! “Vamu gudá” um “adessivo” bem “gandão nu queminho”, aí você “sábi qui” ele é “pá usá purúltimu”!!!
− É mesmo!!!
4º campeonato · Fantasia
SECRETARIANDO...
− Vovó, “fáiz favor”, vai marcando aí “u tamanhu dus quadrinhu pá” mim?!
− Tô marcando, pode falar...
− Cada um tem 5 “centimo di” assim, ó”!
− Sim, 5 centímetros de comprimento.
− Isso... Agora, “marcaí”, “fáiz favor”, tem 2 “centimo di altimento”...
(kkkkkkkkkkkkk...)
4º campeonato · Fantasia
DIALÉTICA SOBRE A VACA (ou sobre o leite)...
− Vovó, “u” danoninho é “feitu di leitinhu qui” sai da vaca, né?
− É isso.
− “Pur” isso eu “num póssu comê”, né?!
− Por enquanto, não. Mas, quem sabe, um dia você poderá comer!!!
...
...
− Vovó, você “sábi qui pá tirá u leitinhu” é só “ispemê us caninhu” da vaca?!
4º campeonato · Fantasia
DEU ERRADO...
− Vovó, eu “tenhu qui ti contá” uma coisa “qui” você “num vai gostá, qui” você “pódi ficá muuuuitu bava”, “mais” foi sem “querê”!!! Eu fui “pegá” a minha “tuália nu” varal , “mais” eu puxei “cum” tanta força, “cum” tanta força “qui u pendedor vuô longi”... “i quebô”...
...
(mas eu fiquei tão “bava”!!! )
4º campeonato · Terror
RENDIÇÃO
Em meio ao caos dos bombardeios, dor profunda, num gesto de proteção, a mãe aperta o filho contra o peito. Se pudesse, ela o devolveria à mansidão do útero. Sabe que a delicada membrana não o livraria da morte, mas vendaria aqueles olhinhos para os horrores da guerra...
4º campeonato · Terror
Valentia minada...
A cruz na beira da estrada era o terror no caminho da escola. Pesadelo dos dias e das noites. Sensações estranhas povoavam o pensamento e o corpo ao passar por ela. Sinistro. Acertara com os amigos que eles a arrancariam e tudo seria resolvido. E quem teve coragem?! Até hoje a cruz continua lá, no mesmo lugar...
4º campeonato · Humor
AVÓ JURÁSSICA
- Isis, que barulho assustador é esse?
- Fica calma, é só “u rugidu du minhôco”, vovó! Esse “filmin” é da era “rozozóica”! “Us bichu era muuuuito gandis”, vem vê!
- Era “rozozóica”?!
- É, vovó... “Achu qui” foi “antis di” você “nascê”!
4º campeonato · Pico
DELEITE
Queria ir ao Maracanã. Sonho alimentado por décadas. Naquele dia, mesmo sem ter jogo, ele estava lá. No alto, do último degrau, olhava tudo. Maravilhado. Exausto com a escalada intensa, sentou-se para recobrar o fôlego. Silêncio absoluto no estádio vazio. Fechou os olhos e imaginou o barulho da invasão corintiana. Arrepio. Faltava apenas uma coisa. Ficou de pé e gritou a plenos pulmões: “JUIZ LADRÃO!!!”. Pronto...
4º campeonato · Policial
Estado de graça...
O olhar aflitivo da criança, do lado de lá da cerca farpada da alfândega, cortava o sossego do agente. Estava ali havia horas, no colo do pai, enfrentando o frio da noite. Olhos mendicantes não por comida, mas por ajuda. Sem palavra, eles gritavam no silêncio: “você pode ser o meu herói!”... No cochilo dos policiais, o SUPERMAN despertou. E foi o sorriso de gratidão mais bonito que o agente já recebeu...
4º campeonato · Ontem
Alento
Foi num repente. Vindo de tão longe, trouxe, junto com um sorriso que fazia covinhas nas bochechas, o primeiro beijo. Mostrou mundos encantados, novos horizontes e sonhos. E, assim como veio, partiu. Era preciso, tinha de ser. Ou não ser. Até hoje, quando o pensamento desamassa o passado, o arrepio corre pelo corpo.
4º campeonato · Ontem
Nostalgia
Hoje, ali é uma loja. Antigamente, era o salão de baile da vila. Tempo dos belos carnavais, das grandes orquestras, dos ingênuos adereços. Basta fechar os olhos e ouvir o som da saudade:
“Dorme, filhinho do meu coração,
Pega a mamadeira e entra no cordão,
Eu tenho uma irmã que se chama Ana,
De tanto piscar o olho já ficou sem a pestana...”
4º campeonato · Ontem
Se...
Se tivesse esse entendimento lá atrás, naquele tempo; se tivesse desafiado o temor dos passos no assoalho, as dores da noite e os gritos abafados, a maldita demência não a teria transformado no fantasma que é hoje.
4º campeonato · Sinais
SECA-PIMENTEIRA
Na parede da serralheria, Seu Alípio ostentava a velha ferradura. Um troféu. Dizia que era presente do pai e que o pai recebera do avô. Herança que vinha desde os tempos do Império, e que lhe coube na última partilha. Crédulo, era sinal de proteção, amuleto de espantar o azar. Ironia da vida. Um raio o pegou na noite de tempestade.
4º campeonato · Sinais
Ingenuidade...
De pequena, vi aquilo só uma vez. De repente, o dia virou noite. A passarada silenciou, as galinhas se recolheram, e a avó, apavorada, por repetidas vezes fazia o sinal da cruz. Dizia ser o final dos tempos. Coitada! Ainda bem que ela se foi sem saber que aquele treco tinha o nome esquisito de ECLIPSE! Teria endoidado...
4º campeonato · Alunos
Escola da vida
Durante toda a vida, apontava, uma a uma, cada cicatriz cravada na pele, recontando as mais temerárias diabruras da infância. Moleque arteiro! Terror dos professores, desassossego das mães da vila, amado pelos coleguinhas. Sempre arrastava o bando. Hoje, sem nem mesmo ser capaz de distinguir o dia da noite, alisa aquelas marcas que nada mais lhe dizem...
4º campeonato · Alunos
Por onde anda a imaginação...
Quando a professora colocava aquele globo azul na mesa, minha cabeça girava feito pião. O Japão, eu sabia que ficava do outro lado do mundo, e, talvez por isso, quando brincava de cavar pocinho, eu sonhava chegar lá. Agora, os danados dos trópicos me apavoravam! Credo em cruz! Uma hora um arco bitelo daqueles ia despencar em cima da gente!!!
4º campeonato · Selo
No fecho da memória
Feito batuta de maestro, bastava apenas o riscado da sanfona e o som explodia. Quando a voz do marcador da quadrilha ecoava, os matutos viravam cavalheiros. E dançavam, conduziam, sonhavam. Bonito era ver a coroação das damas! As cinturas enlaçadas pelos braços dos amados uniam quereres, selavam promessas. E como sorriam! A rudeza da vida não lhes tirou o encantamento...
4º campeonato · Rasgar
LOUCURA
No silêncio da noite, apenas o som da rasgadura do lençol. A tira volteada no pescoço, num único golpe, foi fortemente cingida. A parceira nem gritou, apenas estremeceu. A sororoca soou fraca. Estava frio, esticou a coberta sobre ela. Falava muito, entorpecia. Agora, os dias seguiriam em paz...
4º campeonato · Rasgar
Desfantasiando
Enquanto os ferimentos eram suturados, a dor mais aguda − aquela que a anestesia não alcança − cuidou de dilacerar a última ilusão. De coração despedaçado, agarrava-se ao último fiapo de dignidade. Nunca houve afeição, nunca foi amor...
4º campeonato · Rasgar
Sem saída...
Quando viu a seringa que a enfermeira empunhava vindo em sua direção, saiu numa desembestada carreira. Varou a cerca de arame farpado e rasgou, de cima a baixo, a camisa nova. Ao longe, uma voz repetia: “Não dói nada, é só uma picadinha na nádega!”. O tiro saiu pela culatra. Livrou-se da injeção, mas a cinta marcou-lhe a bunda.