5º campeonato · Cavalo
Modais de transporte
Navegar é preciso.
Mas cavalgar é mais rápido.
5º campeonato · Cavalo
Navegar é preciso.
Mas cavalgar é mais rápido.
5º campeonato · Cavalo
Enquanto os políticos forem porcos e o eleitorado gado, a população seguirá vivendo pela regra do “cavalo dado não se olha os dentes”.
5º campeonato · Bolinha
Uma criança depena as joias da mãe para usar as pedras na rua.
Foi descoberta quando tentou substituir as pérolas pelas recém-conquistadas bolinhas de gude.
5º campeonato · Bolinha
Nadava todos os estilos: borboleta, peito, costas...
Tudo era possível naquele oceano colorido e nada se comparava à leveza (e segurança) de se esbaldar numa piscina de bolinhas.
5º campeonato · Palhaço
Tentou ser mágico. Mas o smoking era apertado, a cartola não ia com a peruca e o nariz vermelho atrapalhava sua visão e a condução do truque.
A criança saiu do celular, riu do palhaço que tentava se ajustar e entrou no circo para ver como aquilo ia acabar.
- Isso sim é um grande truque!
5º campeonato · Palhaço
Amor de Carnaval.
No Carnaval em que se conheceram, eram Pierrot e Colombina. Passados os dias de confete e serpentina, tentaram sobrevier à folia e constituir um lar.
Não demorou para que percebesse que aquela casa era apenas um palco no qual ela era a ocasional estrela principal e ele era sempre (feito de) palhaço.
5º campeonato · Marca
Em um momento de descuido, não viu quando o filho se aproximou da parede branca e a marcou com suas mãozinhas sujas de tinta.
Passado o desespero, colou uma moldura ao redor das impressões digitais, com os dizeres: “Obra: Infância / Artista: Ainda não devidamente reconhecido”.
5º campeonato · Marca
Marcados para morrer, andavam cabisbaixos pela sua prisão de madeira.
Com a proximidade do Natal, comemoraram quando a família renunciou aos perus de Natal por uma ceia vegetariana.
5º campeonato · Baralho
Procurou no baralho a sorte do amor. Todas as cartas que saíram eram vermelhas.
Achando que era um bom presságio, saiu feliz chupando uma bala.
Morreu engasgado com uma 7 Belo.
5º campeonato · Baralho
Depois de três noites de Carnaval, decidiram jogar baralho para se acalmar.
Ele pediu truco, ela mostrou sua canastra.
No final, foram os dois de all in.
5º campeonato · Baralho
Tentou encontrar nas cartas a resposta para seus problemas. Não gostou do jogo, embaralhou e jogou de novo. Não gostou do jogo, embaralhou e jogou de novo.
Vendo que o resultado não mudava, entendeu que só ele poderia fazer sua sorte.
5º campeonato · Cebola
Sempre que descascava cebolas chorava de saudades daquela que lhe havia ensinado tantas receitas.
5º campeonato · Cebola
Ao longo da vida, havia deixado várias camadas. Infância, adolescência, vida adulta.
Em cada fase, lágrimas. E também o tempero e o sabor que vem com um bom refogado.
5º campeonato · Nota
Observando um diálogo entre Todo Mundo e Ninguém nos dias de hoje, Belzebu e Dinato buscavam entender que motivava esses personagens na atualidade:
- Dinato, escreva aí: no final das contas, Todo Mundo quer ser notado e notável, enquanto Ninguém quer notar o mundo e tudo que há de relevante nele.
5º campeonato · Nota
Ansiosos e ansiando por um tema, viram a palavra e não notaram que era apenas um esclarecimento.
Notáveis contos e micro contos surgiram aos borbotões. A imaginação e a criatividade se notavam de longe naquele grupo.
Ah, escritores... sempre notando a inspiração onde mais ninguém a vê...
5º campeonato · Desejo
Todo domingo era assim: o via rodopiar com outros naquele ambiente fechado e quente. Salivava, o desejava profundamente, mas sabia que era uma ânsia proibida.
Entristecida, lambia o focinho e saia da padaria antes que o dono a enxotasse.
5º campeonato · Desejo
Lavou o rosto e viu um cílio em sua mão. Tentou pensar em um desejo:
- Desejo não me casar cedo, demorar um pouco mais para ter filhos, não me acomodar no trabalho ou só ter uma ajuda...
Antes de concluir o pedido, o bebê começou a chorar. Resignada, disse em voz alta: “desejo que ele durma logo”.
5º campeonato · Ninguém
Chegou em casa e viu tudo limpo. O filho estava no quarto, de porta fechada, com um amigo e a avó dormia no sofá. Assim, foi tomar banho.
- Bia, já arrumou a casa?
- Ué, não foi você? Aliás, quem está no quarto com o Pedro?
- Tem alguém com Pedro?
Ao abrirem a porta do quarto, não encontraram ninguém.
5º campeonato · Vazio
Me desfiz de uma antiga versão de mim para fazer espaço para você. Esvaziei-me para te dar abrigo e comida. Chego ao ponto de achar que não tenho mais nada que não seja uma extensão sua. Medo de me perder.
Você sorri seu primeiro sorriso. Transbordo. Sou uma versão melhor de mim.
5º campeonato · Vazio
O aparamento está cheio de novos móveis. Armários e cômodas repletos de eletrodomésticos e presentes.
O vazio não está no apartamento, mas sim dentro dela.
5º campeonato · Vazio
O maior vazio não se nota nas escolas destruídas, nos hospitais arrasados, nas plantações que já não existem, mas sim dentro dos salões de reunião e gabinetes de governos.
5º campeonato · Estrela
Sabia que somente a primeira estrela lhe concederia seu pedido. Queria, muito, uma filha.
A menina veio, mas foi uma passagem meteórica.
Feliz em sua maternidade, segue ela buscando a primeira estrela. Não para fazer um pedido, mas para falar com a filha.
5º campeonato · Estrela
Ela corre, pega impulso e dá uma estrela... e outra, e outra e mais uma.
Adora ver as coisas girando e de cabeça para baixo.
Mesmo criança, já sabe qual é o melhor jeito de encarar a realidade.
5º campeonato · Pétala
Não era fácil ser ela.
Suas pétalas não eram as mais bonitas do jardim. Desabrochava, só que não tinha perfume.
Mas tinha algo que nenhuma outra tinha: um coração, que sentia e sofria por ser diferente.
Vida difícil de alcachofra.
5º campeonato · Pétala
Enviou-lhe duas dúzias de rosas. Uma para cada mês que haviam passado juntos até então.
Ela lhe devolveu os buques totalmente despedaçados. Uma pétala para cada vez que ele a fez chorar.
5º campeonato · Corpo
Visto a camiseta que você deixou para trás na esperança de esquentar meu corpo como você o fazia. Não funciona. Até suas roupas parecem me mostrar o quanto não servíamos um para o outro.
5º campeonato · Corpo
Ia à academia para alimentar o ego. Para o corpo, só pizza resolvia.
5º campeonato · Corpo
Os que a olhavam viam um corpo, mas se recusavam a vê-la.
Ignorantes por completo, atiraram em Celso, mas mataram Luiza.
4º campeonato · Anel
Foram reis, mas o califado há muito já não existia.
Daqueles tempos, só conseguiu guardar o anel do pai, aquele com a inscrição que era o lema da família: "tudo passa".
4º campeonato · Abóbada
Às vésperas do Dia do Folclore, as entidades mágicas da floresta se reúnem e se perguntam se ainda há algo a comemorar.
“A floresta ainda tem música, os animais ainda sabem dançar, então, há o que comemorar”, responde Cobra Grande.
A abóboda estrelada ilumina a noite de festa, as tradições seguem guardadas pelos que habitam e cuidam da floresta. Ainda há festa e esperança.
4º campeonato · Abóbada
A música que ecoa na floresta amazônica também toca na savana africana, no deserto árabe, nas montanhas do Tibet, no Outback australiano.
A mandala traz desenhos variados, todos conectados.
A mensagem que vem deste filtro dos sonhos mágico e ritmado é uma só: podemos estar em lugares diferentes, mas no fundo somos um só.
4º campeonato · Receita
Pegue uma criança – preferencialmente uma pela qual você seja responsável – e tente não despejar suas frustrações.
Aperte bem a massa quando ainda são pequenas e, na adolescência, deixe descansar (bastante tempo).
Adicione sal, pimenta, resiliência, umas lágrimas, risadas e amor.
Asse em fogo lento por 18 anos, mas saiba que aos 20 fica melhor e aos 30/40 está totalmente pronto.
4º campeonato · Receita
Recebeu da sogra um livro de receitas da família do marido e um conselho: fisga-se o marido pelo estômago.
Aplicada, dedicou-se a fazer cada receita com amor e esmero. Dia após dia, o marido comia tudo com indiferença (a mesma com a qual lidava com o próprio relacionamento).
Cansada de ouvir a mastigação do marido e os elogios dos outros, pegou o livro de receita e foi abrir seu restaurante.
4º campeonato · Receita
Da vó herdou as coxas grossas. Os dons culinários pularam sua geração. Usava o livro de receitas da vó e faltava algo. Faltava a vó.
Mesmo derrotada, quis a sopa da vó. Foi ao livro e nada de sopa.
Teimosa, pegou uma foto da vó e foi para cozinha, tratando de fazer o que lembrava do preparo. Lembrou da risada da vó, das colheradas de ajuste do tempero e do cheiro da sopa pronta.
Então, entendeu que a receita era usar o coração.
4º campeonato · Receita
Para tentar superar o bloqueio criativo, resolveu fazer uma sopa de letrinhas.
Não viu que a sopa estava vencida e acabou tendo uma verborreia.
4º campeonato · Receita
Gato e cão querem o último pão:
- Somos mágicos e temos sete vidas. Ora, são nove delas, se formos gringos!
- Gaste uma para passar fome! Cães são leais e amigos. Até Rainha era fã de cachorros!
- Podemos substituí-los a qualquer hora! Quem não tem cão, caça com gato.
- A única coisa que vocês fazem melhor é churrasco. Espetinho de gato dá para encarar, mas ninguém come o melhor amigo.
Sendo a briga milenar, dividiram o pão.
4º campeonato · Receita
Perdida na pandemia, buscava rumo e um lugar para chamar de lar.
Encontrou-a igualmente perdida e a ligação foi imediata.
Acreditava que estava resgatando uma vida, só não imaginava que era a sua própria.
4º campeonato · Bilhete
Última aula do período noturno e um bilhete roda pela sala recolhendo sugestões para o local do jantar.
Um quer pizza, outro prefere lanche e o último sugere o restaurante novo daquele chef famoso. De repente, Ana escreve: “Quero muito ir comer gente!”
Bem rapidinho, todos decidem voltar para suas casas.
- Como vocês são sensíveis... eu só esqueci da vírgula – a menina diz enquanto caminha para a barraca de pastel.
4º campeonato · Bilhete
A tarefa: escrever um bilhete para sua versão criança.
Tentou o humor, porque lembrava de ser uma menina engraçada. Pensou no terror, para alertá-la dos perigos da vida adulta. Achou melhor apostar em algo infantil e prolongar a época da fantasia.
Mas tudo soava muito dramático.
No final, ficou com o recado mais sincero: “sinto saudades”.
4º campeonato · Drama
Na sua infância, a avó tinha cheiro de biscoito de canela. Hoje, urina e material hospitalar.
A mãe e as tias relutavam em aceitar as vontades que a avó, quando ainda estava lúcida, havia deixado para a ocasião.
- Isto só vale para cachorro e gato! – berrava a mãe, entre lágrimas.
Que triste sermos mais humanos com bichos do que com nossos entes queridos.
4º campeonato · Drama
Andava displicente, sem prestar atenção ao caminho.
Olhava o mar e pensava em todas as escolhas que não havia feito e como estas teriam levado a um futuro talvez lindo, talvez tão triste quanto.
Nada era certo e definido. Sua vida, assim como o mar, era inconstante e imprevisível.
4º campeonato · Romance
O amava desde que se conheceram. Eram crianças quando dividiram as camas, o chuveiro e as roupas.
Foram adolescentes descobrindo os limites do amor e da amizade juntos. Em algum momento, os interesses variaram e a descoberta de que já não queriam a mesma coisa um do outro os afastou.
Ficou surpreso quando o grande amor da sua vida o chamou para ser padrinho do seu casamento.
4º campeonato · Romance
Cansou de buscar respostas nos romances e poemas. Apelou à lógica (racional) dos números.
Contudo, não havia equação que explicasse a força gravitacional entre seus corpos, a multiplicação de sensações quando estavam juntos ou mesmo como aquelas vidas tão distintas seguiam em tão perfeito paralelismo.
Se o multiverso era real, sentia pena das versões em que a sorte (pura e simples) não os colocou juntos.
4º campeonato · Fantasia
Chegaram àquela terra mágica em grandes barcos. Com seus facões abriram caminhos e clareiras.
Encontraram uma terra mágica com linda fauna e flora. Cachoeiras, seres místicos, magia vindo das ervas.
Para os portugueses, a chance de viver uma fantasia. Para os indígenas, o início do fim.
4º campeonato · Fantasia
Em 2050, o colapso populacional leva A Corte a impor medidas de controle de natalidade para homens e mulheres. É permitido apenas um filho por casal. Após, homens e mulheres são esterilizados. Somente casais esterilizados podem ter relações sexuais por prazer.
A natalidade está controlada, mas o envelhecimento da população preocupa.
A Corte pensa, então, em impor a eutanásia forçada aos maiores de 65 anos.
4º campeonato · Fantasia
A Pequena Sereia foi até o Rio Amazonas. Perdida, perguntou para Iara como voltar para casa. Mas Iara gritava para a Branca de Neve não comer as frutas do mato, pois ia pegar uma envenenada.
- Aqui não tem Príncipe beijando desconhecida!
- Eu ajudo! – disse o boto.
Pior, a Chapeuzinho seguiu o Curupira e caiu na toca do Lobisomem.
Vendo tudo trocado, a mãe falou para filha:
- Você misturou os livros?
- Eu não, mãe. Foi o Saci.
4º campeonato · Fantasia
Um ratinho engravatado buscava trabalho:
- Ai ai ai... Sem dinheiro, não dá para comprar queijo coalho.
Um gato esperto ouviu o resmungo e lhe disse baixinho:
- Ratinho, te pago bem para ser meu lanchinho.
- Gato bonzinho, prefiro trocar o coalho por um Polenguinho.
E fugiu bem rapidinho...
4º campeonato · Terror
Esse é um conto de amor.
De amor à primeira vista. A vi em um post numa rede social e na hora soube que ela era meu destino. Comecei a segui-la, nessa e em outras redes sociais. E também na faculdade, no trabalho, no caminho para casa.
Não preciso mais segui-la porque agora ela está aqui. Assim que nossos documentos novos ficarem prontos, vamos fugir e ela vai, devagarinho, aprender a gostar de mim.
Esse é um conto de amor.
4º campeonato · Terror
Uma jovem está desacordada na calçada, na porta da sua casa.
Uma gestante dá entrada na maternidade para um parto com anestesia.
Uma menina indígena brinca perto do garimpo.
Uma mãe busca auxílio com um líder espiritual de renome.
Uma bebê nasce com o pai errado.
O patriarcado é um serial killer sádico e institucionalizado.
4º campeonato · Humor
Como a festa de Dia das Mães começava cedo, pulou da cama e foi logo acordar a filha.
A menina acordou mal-humorada e sem disposições artísticas. Saíram atrasadas e sem tomar café da manhã. Na escola, colocaram mães e filhos frente a frente e a professora explicava:
- Agora, quero que as crianças digam às mães o que sentem nesse dia especial.
De olhos marejados, absorvia aquele momento mágico:
- Mãe, eu sinto... Fome!
4º campeonato · Humor
Sendo a única advogada da família, as festas e encontros eram sempre uma extensão do escritório. Era só se sentar para comer e a cadeira a sua frente virava balcão de reclamações.
Cansada de responder a questionamentos tributários, previdenciários e trabalhistas, pensou: “Na próxima encarnação, vou ser proctologista”.
4º campeonato · Pico
Os picos mais altos e duros. O vale nunca esteve tão fértil.
Deitada, a barriga era uma montanha firme e redonda.
Amava a topografia do seu corpo de grávida.
4º campeonato · Policial
- Nossa! Outra chacina na baixada.
- Quem começou: os bandidos ou policiais? Ah, passa a salada, por favor.
- Toma. Acho que foram os policiais. Quer sal?
- Complicado, né... Quero sim. Dá para trocar de canal? Às 21h vai começar o futebol no canal 38.
4º campeonato · Policial
O policial – despreparado, mal remunerado e assustado – faz a rota em seu próprio bairro e é vizinho do traficante, do aviãozinho, do pequeno meliante. Os excessos e abusos atingem o seio da comunidade por inteiro.
Enquanto isso, os verdadeiros bandidos comentem suas ilicitudes em gabinetes oficiais e devidamente engravatados, voltando ao final do dia para a paz dos condomínios fechados.
4º campeonato · Ontem
Ela, ansiosa, queria tudo para ontem.
Ele, despreocupado, deixava tudo para amanhã.
Tentaram viver o presente, mas o pouco tempo passado juntos deixou claro que não teriam futuro.
4º campeonato · Ontem
Saiu para viver um novo amor, olhou para trás e viu apenas uma sombra daquilo que um dia foi a amada. Na pressa de ir, deixou o violão.
Esqueceu o ontem e foi viver o futuro, certo de que ela sofria mais que ele.
Mas o novo amor esfriou e ele lembrou do violão. Ligou para ir buscar e foi atendido por uma voz alegre – a mesma do início da relação.
Ao chegar na casa e olhar o antigo amor, viu que, na verdade, quem vivia no ontem era ele.
4º campeonato · Sinais
Procurava por sinais de vida inteligente fora da Terra.
Na Terra mesmo, já não via mais nenhum.
4º campeonato · Sinais
Sempre há sinais. De amor e de desamor.
Os de amor são mais percebidos, mais enganadores e quase estelionatários. A (falsa) paciência com a tolha molhada na cama, a (dissimulada) tolerância às opiniões divergentes.
Os de desamor são ignorados, mas mais verdadeiros. Olhar sem brilho, distância no sofá, sexo burocrático, falta de interesse na rotina.
Sempre há sinais. Só que escolhemos quais queremos ver.
4º campeonato · Alunos
Era seu primeiro dia de aula como professora titular da rede municipal. Queria trazer para os alunos dinâmicas muito usadas na rede particular.
“Não podemos negar aos alunos a chance de ter um ensino de ponta”, era seu lema. Ao chegar na sala, os alunos não compartilhavam do seu entusiasmo.
- Gente, vamos lá! Ânimo! Desse jeito, não sei nem porque vocês vem para escola...
- Para comer, professora.
4º campeonato · Alunos
Como chef real, servia os mais incríveis banquetes, os quais eram elaborados pela sua resignada auxiliar – a quem ele amava humilhar.
Ele se gabava e alçava fama pelos pratos que ela cozinhava. Em um jantar exótico, o rei caiu morto sobre um dos pratos. Preso, se perguntou como isso aconteceu?
- O baiacu é uma iguaria complexa, chef. – disse a dissimulada e recém-nomeada chef.
E a aluna superou o mestre.
4º campeonato · Selo
Toda vez que viajava de férias, fazia um amigo com quem trocava endereços para enviar cartas durante o ano letivo.
Tinha selos do Brasil inteiro e até de outros países. Tinha cartas escritas a mão e lembranças vívidas dos verões na praia e dos invernos no campo. Colecionava férias das quais tinha saudade durante o ano, mas que não queria repetir (coleção não se completa com item repetido).
Crescendo, as cartas foram trocadas, mas não entre si – por e-mails e contatos de celular. E isso não dava para colecionar.
4º campeonato · Rasgar
A maior alegria do Carnaval e poder rasgar a fantasia de nós mesmos que usamos durante o ano inteiro.
4º campeonato · Rasgar
Escreveu uma página. Amassou e jogou fora.
Escreveu um conto. Ainda não era aquilo.
Escreveu uma crônica. Fez um livro. Não estava bom.
Por mais que escrevesse, não havia palavras para expressar aquilo que lhe rasgava a alma.
4º campeonato · Rasgar
Rasgou boletos, multas de trânsito, contrato de aluguel, recibos para o imposto de renda, convites de casamento e de chá de bebê. Rasgou até a certidão de nascimento.
Não adiantou: a vida adulta chegou do mesmo jeito.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.