11º campeonato · Diálogo
Pediu para dar a mamadeira.
Falou para tirar o lixo.
Implorou para não deixar a toalha na cama.
O monólogo feminino recorrente.
11º campeonato · Diálogo
Pediu para dar a mamadeira.
Falou para tirar o lixo.
Implorou para não deixar a toalha na cama.
O monólogo feminino recorrente.
11º campeonato · Diálogo
Gritou que tinha direito de andar à noite.
Berrou que sua saia podia ser curta.
Bradou um não bem claro.
Monólogo. Sua voz silenciada.
Com homem sem respeito nunca teve diálogo.
11º campeonato · Diálogo
Nasceu prematura para a arte.
Amarraram seus braços.
Levaram seus lápis, seus cadernos.
Mas não podiam lhe tirar as vozes.
Continuava conversando com seus personagens.
Depois da morte publicaram seus livros.
Uma gênia, diziam.
11º campeonato · Bolso
Ele tirava do bolso e colocava na minha mão mandando fechar bem forte. Todos os dias minha mãe ficava feliz de ver meu avô trazendo algo para mim. Mas nunca tinha nada. Eu fingia para deixar mamãe pensar que sim. Vovô vinha até nossa casa pra fazer as refeições. Dávamos as mãos para agradecer o alimento. Era eu devolvendo um porquinho do amor.
11º campeonato · Bolso
Guardou o lenço no bolso. Não era um navio partindo para abanar, era o caixão de sua esposa.
11º campeonato · Bolso
Duas moedas no bolso. Uma para tentar a sorte e outra para pagar o coveiro.
11º campeonato · Ficção
Fechou o livro e viu o pai esfaquear a mãe. Queria fechar o livro de novo e acreditar que fosse só ficção.
11º campeonato · Ficção
Beijou a página do livro, riram dela. Decidiu escrever seu próprio romance. Agora todos querem beijá-la.
11º campeonato · Ficção
Guimarães Rosa disse que é nas horinhas de descuido que se encontra a felicidade. Eu me descuidei escrevendo ficção. A realidade que ficasse com os segundos de cuidado.
11º campeonato · Cobre
Cobre com o jornal de ontem o morto de hoje. Agora são duas notícias com mancha de sangue.
11º campeonato · Cobre
Lâmpada dos desejos:
Esfrega a barriga com a mão para ver se o feto volta a crescer.
11º campeonato · Cobre
Esportista desde criança desejava ouro, aceitava prata, não ganhava nem bronze. Desiludido, perdeu o rumo e morreu roubando fio de cobre.
11º campeonato · Melancia
Não tinha comida. Usou as moedas para comprar sementes de melancia, porque a fruta inteira não conseguia pagar. Plantou, esperou, tinha pelo menos água da fruta.
11º campeonato · Melancia
Colocou a melancia na cabeça como falaram. Subiu no poste. Morreu eletrocutado. Todos queriam ver o corpo, teve velório cheio. Velado realizado.
11º campeonato · Melancia
Grávida teve desejo de melancia, o pai não encontrou a fruta, trouxe jaca. Nasceu a criança oposto do pai, mas a cara do verdureiro.
11º campeonato · Ano
Não chegou a comemorar naquele ano. A barriga doeu.
11º campeonato · Ano
Do que adianta o ano novo se o calendário é velho, o relógio anda rápido demais e não se tem mais festa com olho no olho. Gostava mesmo era do ano antigo onde a música era arranhada, o tempo dava tempo de comer sem pressa e a gente conversava sem se distrair por um bip.
11º campeonato · Toa
Esperar sentado morre afogado.
Preferiu deixar seu barco ser levado pela toa amarrado à outra embarcação. Ficando à toa, nunca guiou o leme, tampouco chegou ao mar.
11º campeonato · Toa
- Essa mulher está fazendo escarcéu à toa - disse o marido ao delegado justificando “apenas” um olho roxo.
11º campeonato · Toa
À toa embaixo da árvore, sonhado com uma salada de frutas, ganhou um galo numa queda livre e cantou uma lei.
11º campeonato · Umbigo
Um bigo, dois bigo, teis bigo.
Não, disseram que a mamãe não tem mais de um umbigo, é furo de bala.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.