5º campeonato · Baralho
A CARTOMANTE
A velha enrugada põe as cartas à mesa. Seu pequeno cigarro exala uma fumaça densa e tenho dificuldade em ver olhos miúdos.
- Eu vejo MORTE! - exclama, apontando seus longos dedos sobre uma das cartas.
Fico de pé, aproximo meu rosto ao dela, roubo-lhe o cigarro e dou uma tragada.
- Eu vejo alívio. - respondo enquanto solto fumaça em seu rosto flácido.
5º campeonato · Cebola
O ÚLTIMO ANEL DE CEBOLA
Ela tentou de tudo: encheu a boca d’água, usou óculos escuros, colocou um pano molhado em cima dos ombros, disse que já não queria nada, entrou com pedido de separação, pediu a guarda, dividiu os bens, até que a morte os separe - nada adiantou, pois ela ainda chorava ao cortar as cebolas.
5º campeonato · Nota
Sua boca cheia de dentes não fala língua alguma. Sons e mais sons, sem conexão, improvisos de jazz. Em um papel você rabisca e anota: “eu estou Ré, Mi, Lá, Ré!” Já é tarde demais.
5º campeonato · Desejo
E, então, ela desejou apenas o desejo. Morreu-se, afogou-se, liquefez-se sem arrependimentos.
5º campeonato · Vazio
ERA UM ESPELHO SUJO
Olhei diretamente para você e vi que mudou o cabelo. Seus olhos não dizem nada e sua boca é cheia de dentes e língua e saliva. Sorrimos em conjunto, mas sei que você finge.
5º campeonato · Vazio
o vinho é molhado e o gole é seco
penteio os lábios com a língua rachada
bebo o último gole de vida
fecho as janelas e não vejo a noite
preto
escuro