5º campeonato · Bolinha
MICRO MUNDO
Seus dias eram tão sem graça. Só comer, dormir, existir. A vida parecia vazia, solitária e sem sentido. /Seu convívio era apenas com seres gigantes desengonçados que tentavam se comunicar com ele, sem sucesso. Os seres, eram agradáveis, não podia se queixar, mas algo lhe faltava. Os grandões tinham um brilho nos olhos quando o pegavam no colo e vez ou outra quando se comunicavam uns com os outros./Um dia algo redondo, pequeno e que deslizava sem esforço reluziu na sua frente. Que atração! Imediatamente ele correu atraído como um imã e saiu animado correndo para cá e para lá com o objeto. Jogou de um lado para o outro, calculou os melhores ângulos para a diversão, parecendo um velho jogador de bilhar ou um cauteloso matemático prevenindo os próximos passos de seu estudo. Era um êxtase, o tempero que faltava em sua vida. / Quando já estava ofegante de tanto se divertir, um dos gigantes pegou seu passivo companheiro de aventura/ O gigante percebeu o erro, vendo a aparência inquisitiva de seu pequeno amigo peludo e perguntou: “ É bolinha? Bolinha que você quer?”/ Sim! Bolinha! Bolinha era seu novo mundo, era prazer, felicidade, uma coisa fantástica! O que mais um gatinho artilheiro poderia querer para iluminar seus dias? Bolinha!
5º campeonato · Palhaço
Certo ou errado?
- Palhaço! - gritou a mulher espalmando a mão no meu rosto sem expressão.
Um palhaço de verdade não ficaria apático, mas a plateia involuntária achou graça da cena que não esperavam assistir ao aguardar serem atendidos pelos profissionais de saúde da clínica e prendiam o riso com dificuldade.
A desconhecida tinha ido ali só para isso? Que palhaçada era essa?
Eu estava ali tranquilo, preenchendo uma ficha de avaliação para um aparelho ortodôntico que eu não precisava e acontecia isso? Será que era algum desafio da internet? Eu tinha que saber o que era. Não poderia deixar barato.
Queria correr e gritar exigindo explicações mas a prudência me freou e apenas a segui.
Ela foi até um shopping e sentou-se para beber água sozinha. Não parecia descontrolada nem cercada de câmeras. Foi quando entendi o que tinha acontecido.
Cautelosamente a abordei e expliquei a existência de uma cópia xerox de mim, um gêmeo.
- Sei que é difícil de acreditar - estava pronto para argumentar, mostrar fotos, mas ela interrompeu.
- Não, não é. Ele está bem ali.
É de fato ele estava poucos à frente aguardando alguém sair de uma loja.
Fomos ao encontro dele para que tudo fosse esclarecido.
Logo que eu e a desconhecida chegamos, minha noiva sai da loja. Muito amável, gentil, falando como se estivesse comigo, beija-o carinhosamente.
Minha calma e racionalidade evaporam nos décimos de segundo que levo ao trocar olhares significativos entre a desconhecida e meu irmão.
- Palhaço! - é só o que consigo grunhir ao pesar a mão em um cruzado de direita, de cunho professoral, na cara dele.
5º campeonato · Marca
Passado presente
Agora que a tão sonhada viagem para Cancún, parcelada em mil vezes no cartão, tinha ido por água abaixo por causa de um tornado na região, demoraria muito para Marize superar a frustração.
Um pequeno passo foi aceitar ser substituta do namorado da prima em uma viagem romântica para uma desconhecida cidade do interior de Minas.
A prima de Marize tinha interesse histórico e cultural intenso e juntas visitaram cada museu, igreja e centro cultural conhecido, mas ela queria ir além do básico.
Marize a acompanhou sem empolgação enquanto se embrenhavam por ruelas cada vez mais precárias e desertas.
Certa que em poucos minutos chegaria ao Amapá, finalmente sua prima estacionou o carro perto de uma construção em ruínas e já saiu tirando fotos de tudo e a chamando para entrar na casa à frente. Mais um museu.
Um museu-brechó particular, cheio de coisas velhas, quebradas, fotos descoloridas, pinturas bizarras.
Marize olhava e não via nada, até esbarrar na prima que encarava algo pendurado na parede.
Assim que viu o que era, também se impressionou. Uma das fotografias mais velhas que já tinha visto com uma mulher muito parecida com ela. Melhor, igual. Exceto pelas roupas de enterro e tranças descomunais .
Ela quis fugir sem explicação, mas a prima estava em transe, apontando para a foto e balbuciando:
- A marca…
A marca de nascimento idêntica a sua. Duas manchas brancas como braceletes em ambos os pulsos.
Sobressaltada, puxou a prima para irem embora, mas antes de conseguir, várias pessoas surgiram no salão e uma delas saudou:
- Luise! Sabíamos que era você tinha voltado, assim que vimos a marca.
Nesse instante portas e janelas se fecharam sozinhas e Marize já não estava mais no controle de seus pensamentos.
5º campeonato · Baralho
Buraco é um jogo de baralho peculiar. Muitas vezes quando se pega o morto é que o jogo fica vivo e melhor para pontuar.
5º campeonato · Baralho
Minha construção mais bem sucedida era um forte de vários andares de cartas de baralho. Pode parecer frágil, mas a fluidez das cartas é como a vida: aberta a vários jogos, ao futuro, a inúmeras possibilidades.
5º campeonato · Cebola
Sem notar a presença de nenhuma emoção profunda ou especial, lágrimas abundantes e involuntárias eram derramadas por seus olhos, como se alguém cortasse uma cebola invisível a sua frente.
5º campeonato · Cebola
Casca grossa
Escondida sob várias camadas de proteção, como uma cebola, fazia chorar quem quer que tentasse lhe descascar buscando aproximação.
5º campeonato · Nota
Inevitável fim
Um viajante chegou a um suntuoso castelo abandonado e ao abrir a fechadura achou uma nota: “É tudo seu, desde que não abra a porta vermelha.”
Havia ouro, pedras preciosas, tapeçarias de qualidade, mobílias de primeira.
O viajante ficou rico, influente, começou sua família.
Mas todos sabemos que um dia ele abriu a maldita porta vermelha e acabou perdendo tudo.
5º campeonato · Desejo
No desejo que tinha de obter provas concretas da traição, deixava a desconfiança consumir todas as oportunidades de aproveitar momentos verdadeiramente felizes.
5º campeonato · Ninguém
Problemas de comunicação
Já era a terceira vez que ia atender a campainha só hoje, e quando abria a porta não havia ninguém.
Provavelmente era alguma criança de brincadeira ou um problema na campainha.
Na semana seguinte, trocou a campainha e instalou uma câmera bem visível para intimidar engraçadinhos.
Funcionou por um mês.
Os toques da campainha voltaram, mas ninguém aparecia na câmera.
Trocou de novo a campainha, dessa trocando toda a fiação e com um profissional e com sua supervisão.
Não tinha como ser defeito da campainha.
Uma semana depois, bateram à sua porta. A câmera não mostrava ninguém, ao olho mágico não via ninguém.
Defeito da câmera? Seu coração ficou acelerado, sentiu um arrepio pelo corpo e seus pelos eriçarem, mas mesmo assim abriu a porta.
Em um piscar de olhos surgiu do nada uma mulher, com penteado elaborado e roupa de festa suja de sangue antigo.
- Finalmente alguém que consegue me ouvir. Você tem que me ajudar.
E a aparição foi entrando sem cerimônias no apartamento do rapaz, que atônito a seguiu, curioso para saber como seria o fim dessa história.
5º campeonato · Estrela
Vai e vem de marés
Um grupo de desbravadores saiu em meio a tempestade para procurar alimento para todos de sua comunidade.
Não seria a água que caía do céu sem nenhuma estrela um empecilho. Tinham pernas fortes, coragem e determinação.
Não foi suficiente. Um desmoronamento pegou todos de surpresa. Ao voltarem a consciência plena estavam em mar aberto, sem vestígios de terra nas proximidades.
Depois de muito nadarem no escuro, viram algo grande o suficiente para suportar o peso de todos boiando a poucas braçadas.
Com todos a bordo, deixaram o vento os levar a seu bel-prazer. Não sabiam se voltariam para casa e nem se fariam a próxima refeição.
Quando o dia amanheceu um tripulante reconheceu onde estavam:
- Capitã- dirigiu-se a líder . - Acho que estamos em um de nossos alimentos preferidos.
Um tsunami as arremessou na calçada e as outras formigas também se deram conta que flutuaram o tempo todo em uma folha arrastada pela enchente que a chuva causou.
Agora, retirada à força por um pneu de carro que passou no bolsão de água, a folha salvadora também seria o almoço do dia.
5º campeonato · Corpo
Fora mandante de um crime perfeito. Sem corpo não pode reclamar sua herança. Logo foi ele o coletado por seus credores.