11º campeonato · Diálogo
Diálogo
Não existiu
11º campeonato · Diálogo
Não existiu
11º campeonato · Fotografia
Sua foto em preto e branco estampava a primeira página do jornal. A legenda era curta e definitiva: "Morto em Acidente". O homem que lhe golpeara o rosto e a transformara em medo. Depois de tempos, curvou-se na janela, sentiu o abraço do vento e respirou fundo. O absurdo: a morte lhe trouxe vida.
5º campeonato · Baralho
O medo do abandono estava preocupante, na aflição guardava tudo o que via pela frente para sentir que não estava sozinho, palitos de fósforo usados, pedras na rua, embalagens de enxaguantes bucais.
- Vai, tua vez de jogar
- Acabaram as cartas
- Como? Só jogamos duas vezes
Vermelho e nervoso, levantou-se e foi embora. As cartas caíram no chão, estavam embaixo do seu bumbum.
5º campeonato · Cebola
Cresceu aprendendo que homem não chora, desenvolveu interesse genuíno por cortar cebolas.
5º campeonato · Cebola
A cebola tinha o sonho de ser uma bola, quem diria que até na vida das hortaliças o " e se " teria impacto.
5º campeonato · Cebola
A geladeira estaria vazia não fosse pelo copo de água ao lado da cebola. A mãe chorava baixinho pela falta, os filhos pensavam que a mãe chorava pelo excesso, andava cortando cebolas demais.
5º campeonato · Nota
Sempre foi ruim em matemática, as notas baixas apontavam que tinha grande dificuldade em subtrair. A explicação estava na ponta da língua, não queria que os números diminuíssem igual o amor que lhe foi subtraído.
5º campeonato · Nota
Chuva lá fora, cerveja derramada na mesa marrom, cheiro de tabaco nas paredes, um rádio velho ligado, uma cinta descascada na mão. Os olhos da criança, brilhantes bolas de gude, fazendo ziguezague entre a nota baixa e o couro.
5º campeonato · Nota
A culpa o banhava, a sensação claustrofóbica em céu aberto, um elefante sentado em sua consciência, todos os sentimentos ruins mesclados e transformados em um novelo de lã alocado em sua garganta. Desejava encontrar alívio na nota deixada por ela antes de ir embora, enganou-se, seu mundo virara neblina. Três pontos e só... como o silêncio se preenche?
5º campeonato · Desejo
Sempre desejou ser abduzido. Terça-feira, manhã gelada, acordou assustado e meio zonzo, olhou ao redor, um espaço cilíndrico e prateado. Entendeu tudo, finalmente! Seu desejo foi realizado, quem diria que só tinha que passar a noite ao lado das vacas no pasto! Quando viu os alienígenas, estavam brigando. Chorou, isso ele já via diariamente na Terra.
5º campeonato · Desejo
A árvore dos desejos lhe concedeu, nessa ordem, um gatinho, uma aprovação no vestibular, a cura de uma doença, um casamento e um divórcio bem resolvido. Desde semente, José Maria cuidou, regou e esperou crescer pacientemente aquela fortaleza majestosa. O homem com a motosserra na mão tampouco se importou.
5º campeonato · Desejo
Tua boca tem gosto de pêra recém colhida, teu corpo é misto de pôr do sol com textura de grama molhada, teu cabelo é cobertor em noite chuvosa, teu olhar é imensidão e tua voz é poema. Te desejo com tremor e uma infinidade de certezas. Teu desejo é polvo e teus oito braços escolheram a liberdade.
5º campeonato · Ninguém
Cada um deveria levar algum quitute para a escola. Após a aula, a criança sentou no chão e comeu sozinha o bolo simples de laranja preparado pela mãe, não queria que ela ficasse triste por ninguém ter experimentado nenhum pedaço.
5º campeonato · Vazio
Apontou fraquezas em meu jeito, pois sempre transbordei. Comparou-me orgulhoso com sua escassez. Seu vazio faz eco e implora disfarçadamente, entre alguns soluços, ser preenchido. Dei-me conta aliviada, suas lacunas são estreitas demais para mim, não posso, nem devo, contrair-me dentro de suas brechas.
5º campeonato · Vazio
Ninguém reparou, em meio a multidão e o barulho, o vazio na mão e no olhar da mulher que deixou escorregar, por segundos, dois mundos, entre os dedinhos do seu filho.
5º campeonato · Vazio
O vazio dentro do peito transbordava toda vez que pensava no futuro.
5º campeonato · Estrela
No meio do mar, dentro do barquinho do seu pai, olhou para o céu, estrela-cadente, pediu esperança.
5º campeonato · Estrela
Sentia-se um incômodo tão grande que não costumava fazer pedidos nem para as estrelas.
5º campeonato · Estrela
Desde criança costumava imaginar se São Jorge ganhou seu dragão através de um pedido feito para as estrelas. Acreditava que elas gostaram tanto dele que ofereceram a Lua como casa e uma espada banhada no brilho das Três Marias. Desde pequeno olhava para o céu e sonhava em ser guerreiro. Tornou-se.
5º campeonato · Pétala
O álbum de fotografias ficava ao lado da cama, dentro dele as flores secas eram manuseadas delicadamente por seus dedos cobertos pelas marcas do tempo. A pétala caiu juntamente com suas lágrimas, as lembranças são eternas, não envelhecem com as estações.
5º campeonato · Pétala
Vendaval, caos, barulho seguido de desespero e choro, o céu de todo mundo escureceu. A violência foi tanta que as pétalas das flores foram arrancadas. Daquela briga, o que restou foram as azaleias despedaçadas na calçada.
5º campeonato · Pétala
Quando criança, aprendeu que tirar a pétala de uma flor era sinônimo de machucá-la. Cresceu e passou a refletir se com o tempo virou lírio... não encontrava mais suas pétalas.
5º campeonato · Corpo
Comi um pedaço da nuvem e ela tinha gosto de laranja, dancei com as estrelas e deslizei até a floresta feita de doces, conversei com o esquilo que tocava trompete, contei um segredo e ouvi outros dois, ri feito criança. Sem querer, tropecei na pedra dura e cinza, meu corpo rapidamente caiu. Acordei. Será que o esquilo vai guardar meu segredo? Guardarei os seus.
5º campeonato · Corpo
Senti meu corpo arrepiar quando te vi, foram anos de ausência e outros tantos anos de lembranças enjauladas no meu peito, meu corpo ainda te sente e despencou quando entendeu que sentir tudo isso não é recíproco.
5º campeonato · Corpo
Dentro do caminhão os porcos rebatem-se com violência contra seus irmãos, os grunhidos silenciados pelos ouvidos humanos e o medo multiplicado pela escuridão. Existências breves sem mínimas chances e com mais desejo de viver do que tantas outras. Contrariando Sartre, há corpos quentes que nascem condenados ao abatedouro e não à liberdade.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.