5º campeonato · Cavalo
Amanhecer
Todos os dia um cavalo, satisfeito da vida, pasta as flores do meu jardim.
5º campeonato · Cavalo
Senador
– Calígula nomeou senador o seu cavalo Incitatus – disse o professor.
– Quer dizer que qualquer animal pode ser senador? – perguntou um aluno.
– Não, só os que se prestarem a ser cavalos do presidente – respondeu o professor.
5º campeonato · Cavalo
Seu cavalo! disse a mulher ao marido., que respondeu com um coice.
5º campeonato · Bolinha
A Terra é um mármore azul ou uma bolinha de papel atirada ao espaço com um piparote, disse o menino.
5º campeonato · Bolinha
GEOFAGIA
Quando eu era menino, faz muito tempo, eu fazia bolinhas de barro e punha para secar ao sol, na beira do barranco. Era o chocolate dos meninos pobres, uma delícia!
5º campeonato · Bolinha
BOLINHA DE SABÃO
Pensava que a vida era uma bolinha de sabão. Descobriu que era,
5º campeonato · Palhaço
NARIZ DE PALHAÇO
Todos temos nariz de palhaço – quando queremos tirá-lo está grudado na cara.
5º campeonato · Palhaço
O ESPELHO
– Eu tenho nariz de palhaço? – disse o palhaço antes de entrar no espelho à procura de si mesmo.
5º campeonato · Marca
NENHUMA MARCA
Quando acordou, viu uma corda pendurada do teto e um banquinho como no sonho. Mas nenhum cadáver enforcado. Até chegou a acariciar o pescoço, olhando-se ao espelho: nenhuma marca de enforcamento.
5º campeonato · Marca
A MÃO
Caída no chão, M. gritava que a mão a tinha estrangulado. Gritava como louca, descontrolada. No pescoço estavam as marcas de cinco dedos que se teriam enterrado na carne. A blusa branca estava manchada de sangue.
Em cima da mesa estava a mão esfolada de um cadáver.
5º campeonato · Baralho
O BARALHO DA VIDA E DA MORTE
Embaralho o baralho da vida e da morte, as cartas marcadas para que eu sempre perca.
5º campeonato · Baralho
O JOGO
Onde o baralho? Quem dá as cartas?
Somos todos péssimos perdedores.
O galo dança no alto do campanário.
5º campeonato · Baralho
Aposta
O pai do Gu apostou a mãe num jogo de baralho, perdeu e foi preso para deixar de ser besta.
5º campeonato · Cebola
O SENTIDO DA VIDA
Reflito sobre o bulbo da velha cebola: qual é o sentido da vida? O cheiro da cebola justifica as minhas lágrimas.
5º campeonato · Cebola
A CEBOLA QUASE ME MATOU
Eu estudava numa escola onde serviam refeições aos alunos e era obrigado a comer tudo que vinha no prato. Uma vez comi uma cebola, enorme, suculenta, mas eu sou alérgico a cebolas e quase vomitei as tripas. Pensei que ia morrer.
5º campeonato · Cebola
CHEIRO DE CEBOLA
Era tanto o cheiro de cebola na casa que todos se retiraram do velório de Eugênia.
5º campeonato · Nota
Máquina de escrever
O padre estava com a paciência esgotada. Eu não distinguia uma nota da outra. Era um caso perdido. Mandou que me levantasse do órgão, que eu tentava tocar, e me deu uma velha máquina de escrever: “Vai, vai aprender datilografia!” E assim nasceu um escritor.
5º campeonato · Nota
Melodia
No princípio da criação já havia uma nota ecoando – e essa nota é uma melodia completa. No fim da criação, continua-se a ouvir a melodia.
5º campeonato · Nota
A última nota
Escreveu sua última nota. Depois não se soube mais dele.
5º campeonato · Desejo
Saudades
Foram as saudades da minha infância que me despertaram o desejo de escrever poesia.
5º campeonato · Desejo
SEIS LETRAS
Desejo.
5º campeonato · Desejo
AS DUAS LIRAS
O poeta deve ter duas liras: uma para o desejo, outra para o delírio.
5º campeonato · Ninguém
NOITE ALTA
Ninguém me ouve na noite alta, ninguém. A minha desolação é só minha, estou liquidado.
5º campeonato · Ninguém
A LUZ NO FIM DO TÚNEL
O último a sair apague a luz no fim do túnel. Ninguém saiu.
5º campeonato · Ninguém
ZÉ NINGUÉM
Onde quer que esteja, todos o reconhecem e todos o negam. É o Zé Ninguém.
5º campeonato · Vazio
A MINDINHA
Velhinha, de apelido Mindinha. Passeia na rodoviária, convida esse e aquele – jantar, tomar um café, dormir:
– A minha casa é enorme, cheia de quartos vazios.
Sente-se muito sozinha. Tem um vazio lá dentro dela. Não se acostuma com a solidão, explica.
5º campeonato · Vazio
O FIM DO MUNDO
O menino pela décima vez, talvez, abriu a porta e olhou o escuro da noite, o vazio dolorido, o silêncio inapelável. Voltou-se desesperado para o pai:
– Pai, o mundo acabou?
5º campeonato · Vazio
Teto
Luca sente no vazio do estômago, nos olhos vazios, nos ossos, a fome, a angústia da fome de qualquer impossível humanidade.
Luca se agarra à cama olhando o teto frio, olhando a sua solidão sem remédio.
Luca pede a Deus que lhe devolva as palavras, mas o que Luca faria com as malditas palavras?
5º campeonato · Estrela
Dont Stop Me Now, Queen, 1978
John queria se divertir de verdade, nunca se sentira mais vivo. Queria virar o mundo no avesso, estava flutuando em êxtase. Era uma estrela saltando pelo céu, era um tigre desafiando as leis da gravidade. Nada podia pará-lo.
5º campeonato · Pétala
A PÉTALA E A BORBOLETA
A borboleta é uma pétala no ar, depois a pétala vira borboleta e pousa no sino que vai tocar.
5º campeonato · Pétala
OFÉLIA
Pétalas pelo caminho, depois alguns pingos de sangue, e enfim mais nada.
5º campeonato · Pétala
A PRANCHA
Olha a prancha de surfe pendurada na parede, desfolha uma flor amarela, pétala por pétala, e desabafa:
– Gorda, feia e velha, nem o mar me quer.
5º campeonato · Corpo
Farol
O corpo voou do alto do farol angustiado com os gritos das gaivotas. As pedras brancas ficaram manchadas de sangue, que as gaivotas sobrevoavam. As gaivotas que não mais gritavam.
5º campeonato · Corpo
O sonho
A minha mãe sempre sonhava que um corpo se desprendia do seu e pairava sobre a cama. Tinha pavor da morte, de ser enterrada viva. Tudo por causa do seu outro eu que nos seus sonhos pairava sobre ela. Tinha certeza que acordaria no caixão, onde não caberiam ela e a outra.
5º campeonato · Corpo
Eco
Eco era uma ninfa tão tagarela que foi condenada a só repetir o que os outros falavam. Ela apaixonou-se pela beleza de Narciso, mas ele a desprezou. De desgosto o seu corpo definhou, só sobraram os ossos, que por sua vez se transformaram em rochedos e enfim nada restou dela senão a voz.