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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@fernandodiascyrino

16 microcontos no 5º campeonato.

5º campeonato · Cavalo

Liberdade

O homem soltava as correias que por tantos anos o prenderam à carroça. “Velho molenga, não aguentou subir o morro com as 50 sacas de cimento”. “Papai, os olhos dele não piscam, parecem duas jabuticabas chorando”. Esticou o braço para um carinho no animal morto. O pai o puxou com um safanão.

5º campeonato · Cavalo

Cavalinho preto

- Mamãe, eu queria mesmo era ser um unicórnio branquinho.
- Bobagem, unicórnios não existem e você é lindo.
- Ah, mas um menino passou dizendo que jamais montaria em mim, porque sou negro.
No carrossel a conversa silenciosa entre mãe e filho dava mais uma volta.

5º campeonato · Cavalo

João Bobo

Quando os animais eram soltos seu trabalho tinha início. Catava os cocôs no curral e levava para a horta. João Bobo só soltava uns guinchados, nem falar conseguia, mas cultivava um sonho: montar Pindorama, o cavalo do patrão. O dia amanheceu e o cavalão havia sumido. João Bobo não catou mais esterco.

5º campeonato · Bolinha

No cinema

“Mamãe, a bolinha sumiu”. “Precisava tomar mais cuidado, né?” A mãe se ajoelha e procura a tal bolinha no escuro do cinema. O homem ao lado a observa e se abaixa sem nem saber o que procuram. Em meio minuto todos em volta buscavam a bolinha. “Depois mamãe compra uma nova”. “Precisa não, faço outra.” O garotinho, enfiando o dedo no nariz, sussurra para a mãe.

5º campeonato · Bolinha

Bolinha vermelha

Pediram para apanhar a bolinha verde, ele pegou a vermelha. Os erros coloridos o fizeram sofrer bullying a infância toda. Cresceu e se tornou ajudante de pedreiro. O chefe com dengue e ele, tomou coragem e instalou o painel de azulejos. Madame adorou a combinação insólita de cores. A vida sofrida fora, enfim, recompensada. Sentiu-se um artista.

5º campeonato · Palhaço

Nariz

Nasceu com um nariz diferente. Na ponta havia um pequeno ovo. Agarrado no recreio, pintaram de vermelho a bola. “Nariz de palhaço”, faziam coro. A mãe foi reclamar e ouviu do diretor: “que bobagem, uma simples brincadeira de crianças felizes”. Nunca mais voltou à escola.

5º campeonato · Marca

Ferro e fogo

O fazendeiro tira da fogueira o ferro em brasa e ri dizendo: "Viverá com a minha marca". Tento gritar, mas a voz está presa na garganta. Rosto suado e acordo gritando. Nas coxas busco a cicatriz.

5º campeonato · Marca

Facção

Chegado do interior reparou no desenho do muro. A minha primeira tatuagem, pensou. Morreu sem saber que aquela era a marca da gangue que dominava a favela rival.

5º campeonato · Marca

Enchente

Diante da casa a montanha de móveis e colchões encharcados. A linha na parede da sala marca a altura da lama.

5º campeonato · Baralho

Santa

A velha madre partiu para o Criador. Santa, diziam as freirinhas. Santa, repetiam os fiéis. Santa, proclamou o bispo. Irmã Socorro não dizia nada. Descobrira que seu sucesso incrível no jogo não se dava por milagre de Deus. Seu baralho estava todo marcado. Para não manchar a reputação da freira cuidou de enfiar as cartas sob o corpo.

5º campeonato · Baralho

Revisão da fuga estratégica

Na saída da balada a garota está impressionada com o carro importado do rapaz. “Nossa, que carrão”. “Tudo que tenho devo ao baralho.” A moça, decepcionada, já planeja a fuga estratégica. “Puxa, então você é jogador?” “Que nada, tenho cara de bobo? Sou dono de cassinos”.

5º campeonato · Baralho

Azar no amor, mais azar ainda no jogo
Mais uma que foi embora. Seus relacionamentos eram só fracassos. Entrou no cassino para desafiar a sorte. Perdeu no baralho o que tinha e o que não tinha. Rolava na cama pensando no quanto foi burro em acreditar que quem tem azar no amor, tem sorte no jogo.

5º campeonato · Cebola

Esquecida do protetor solar ela torrou durante o dia inteiro na praia. Uns dias depois o rosto descascado e passou a ser chamada de Júlia Cebola. Além do apelido esquisito ela tinha o dom do humor, com suas piadas a gente chorava de tanto rir.

5º campeonato · Cebola

Embolou o dinheiro da faxina na mão e partiu para o supermercado. Muito mais do que pela necessidade, escolhia pelo preço, somando tudo que entrava no carrinho quase vazio. Ainda tinha 16,50 e a cebola era a pechincha do dia. Daria para levar oito quilos. Nem titubeou e lotou o carrinho. Naquela semana o bafo dos seis filhos e o dela ficaram terríveis.

5º campeonato · Nota

Pagou, passou

Não era preciso se preocupar com a nota. O valor da nota era o critério para a aprovação.

5º campeonato · Desejo

Desejo

Ela olhou para ele e de imediato baixou os olhos cheia de medo, seu desejo era o de nunca mais o encontrar, mudaria outra vez o trajeto. Além de linda é tímida, pensou o rapaz renovando com aquele olhar a esperança que já começava a lhe faltar.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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