4º campeonato · Anel
Promessa de amor
Brincadeira de criança, Manuela rodopiou na dança com Bernardo. Entusiasmado, o garoto apaixonado pegou o brinde do chiclete que havia guardado. Era um anel de plástico jeitoso, com um coração cor de rosa adornado. Pegou as mãos da garota que corou, quando ele o colocou em seu anelar e o beijou. Do sonho ela acordou, lembrou da prenda na gaveta da mesa. “Ainda encontro meu primeiro namorado.”, emocionada ela pensou.
4º campeonato · Anel
Estrada da perdição
A emoção havia tomado conta do seu coração. Insensato, correu pela estrada, tomado pela mágoa, fugindo da realidade. Fora consumada a separação. Agora só havia a desilusão. No noticiário do dia seguinte e nas manchetes dos jornais estampava a tragédia que gerou comoção: chocou de frente com um caminhão o carro que corria na contramão. Foi fatal a colisão do acidente ocorrido de madrugada no anel rodoviário.
4º campeonato · Abóbada
Abdicação
Suzana corria entre as árvores da serra adornada. Sua respiração acompanhava o som do vento que assoprava e desgrenhava seus cabelos. Enquanto isso, seus olhos miravam a imagem da miragem que se mesclava à paisagem. Cega estava, sem destino, sem propósito. De sua família, amigos, colegas restava nada. Estava só, em sintonia, com a única coisa que foi deixada: a vontade de entregar sua carne ao coração da mata.
4º campeonato · Abóbada
Sinfonia do subconsciente
Entre redemoinhos, o som da minha mente ecoava tão alto que os pássaros mudavam sua rota. Presa eu me sentia entorpecida. De repente, surgiu à minha frente a imagem que me despertou. Percebi que as aves que de mim desviaram formaram um desenho que mostrava as oscilações do meu pensamento. Ele mudava com o tempo, desafiando minha sanidade. A música da cabeça saía, coroava e abençoava. Do sonho eu, enfim, acordava.
4º campeonato · Receita
Liquidação
Heloísa comprou várias frutas para aproveitar a promoção que acabaria. A geladeira ficou cheia de frutas que apodreciam, mais ninguém as comia. Revoltada ante tal patifaria, consultou a receita que aquele problema resolveria. Juntou as frutas à gelatina e ao leite em pó, misturou-os e depois congelou. Pegou os sorvetes e os distribuiu no abrigo. Cada criança que passava sorria. “Obrigada, tia.”, assim diziam.
4º campeonato · Receita
Menu para a sedução
Levou a mulher que paquerava ao restaurante mais caro da cidade, o homem que muito se preocupava em como a impressionaria. Mal sabia ele o tanto que o encontro desandaria. A moça detestou cada prato servido, pois a forma de comê-los ela não sabia. Ele se arrependeu, aos desejos dela cedeu. O jantar ocorreu na barraca de cachorro-quente. Descobriu que a receita do amor estava na simplicidade que sua amada devoraria.
4º campeonato · Receita
Fraude por amor
Sandoval, já aposentado e na famigerada melhor idade, lamentava em sua família as dificuldades que sua filha vivia. Faltava dinheiro para os alimentos, da caridade ela dependia. Inocente, ele pediu ao jovem da loja de informática para que lhe ensinasse a usar uma impressora. Pegou suas poucas cédulas, replicou-as nos papeis. Semanas depois, na porta de sua casa bateu o policial, enviado pela Receita Federal.
4º campeonato · Receita
Sabor da sopa
Já não restavam dentes em sua boca. Pela garganta fraca apenas descia o líquido da sopa. O caldo que no dia o neto serviu à avó estava quente, queimava à toa. Esperta que só, ela pediu um prato com água gelada, para adicionar à comida até a temperatura ficar boa. “Não é mais fácil eu assoprar a sopa?”, o neto perguntou. “Só para assoprar a sopa, sua boca tem bafo e vai deixar na sopa um gosto que destoa.”, justificou a senhora.
4º campeonato · Receita
Caridade ou barganha?
Camélia era uma bruxa de nobre coração. O final de semana chegava, e ela distribuía alimentos com compaixão. Um homem esguio cruza seu caminho, enquanto a moça servia a refeição. Interrompeu o andar do rapaz, ofereceu uma tigela com sopa e pão. “Qual é a do caldeirão?”, perguntou o cidadão. “Não finja que é burro. Estou lhe dando sopa.”, ela respondeu. “Precisa de uma colher ou prefere minha boca?”, complementou.
4º campeonato · Receita
Dedicação
Viveu uma vida sem oportunidades, aturando toda sorte de abuso. O homem que, em prol da prosperidade de sua família, se humilhava em troca de alguns trocados, suportava ser tratado feito burro. Tão grande era a carga, tão grande foi o fardo. Andava constantemente imundo, puxando a carroça cheia de entulho. Quem o viu enrolado em embrulhos, achou absurdo quando seu filho tornou-se médico e o encheu de orgulho.
4º campeonato · Receita
Cair de pé
Isabel no passado era fiel aos sentimentos pelo homem cujos lábios tinham gosto de mel. Até que ela conheceu o fel. Parou de alegremente latir, sacudir, deitar, rolar e o rabo balançar. Fingiu de morta um pouco. Arranhou o desamado quando este aproximou o rosto. Miou de desgosto. “Chegue mais perto, com força vou lhe arranhar!”, disse a moça com pêlos eriçados, a sibilar. Levantou sinuosa a gata, seduzindo no andar.
4º campeonato · Receita
Parceiro de crime
Era interessante a amizade existente entre Átila e Dante, o gato rabugento e o cachorro rebolante. A tutora comentava com os amigos sobre a parceria entre eles, que sempre estavam juntos em suas jornadas eletrizantes. De repente ocorreu algo diferente de tudo já visto antes: o cão foi buscar sua bolinha com o bichano a acompanhar. Voltaram com a mão de um cadáver a deteriorar. Um assassinato eles ousaram desvendar.
4º campeonato · Receita
Propaganda enganosa
Confesso que, entre cães e gatos, a queda pelos bichanos costuma ser maior. Posso ir às festas para beber e descontrair, mas se com um ou mais gatinhos esbarro no caminho, de imediato fico a sorrir. Adoro aquele ronronar a seduzir. Infelizmente há aqueles que resolvem me iludir e me ferir. Maldito devir! Nessas horas de desgosto, eu gostaria que os felinos marcassem território e fossem pegajosos feito cachorros.
4º campeonato · Bilhete
Lembrança
Dia de faxina, eu revirava o meu quarto desarrumado. Roupa pra lá, caderno pra cá. Quando aquela zona iria se acabar? De repente, minha mente se distrai de repente. À minha frente, os vários convites da minha formatura que esqueci de entregar, há seis anos. Entre eles encontro um bilhete. Minha mãe e meu irmão me parabenizando pela formatura no ensino fundamental. Sonho e realização em papéis perdidos no meu caos.
4º campeonato · Bilhete
Jogos de papel
Sem internet, rede social. Nada virtual. Início dos anos 2000, amizade e flerte ocorrendo ao vivo, no mundo real. Eu interagia com os colegas de classe em joguinhos de dedos e papéis dobrados, ao meio ou em quatro. Qual adjetivo, qual qualidade ou defeito o escrito escondido revelaria? Recebi um escrito inseguro. “Quero namorar com você.”, estava escrito no bilhete desajeitado. Não descobri o autor do recado.
4º campeonato · Bilhete
Preço da sorte
Haroldo pegou o dinheiro das economias, torrou-o todo na loteria. A esposa não perdoou tamanha patifaria, expulsou de casa o marido que permaneceu na revelia. Ele se culpava pela atitude cheia de rebelia. Mal sabia, o resultado que a televisão comunicaria: seu bilhete foi sorteado, o prêmio ele levaria. Mas será que sua amada o perdoaria? Era o pensamento que sua mente mais repetia. Seria a sorte uma ironia?
4º campeonato · Drama
Rastro
Em meio ao cerrado, em um caminho empoeirado. O agricultor caminhava com seu passo acelerado. Carregava em um farto saco os alimentos que manterão seus filhos e esposa alimentados. Um, dois, três... a exaustão tomava pouco a pouco seu andar. Quantos minutos faltavam para chegar? Ele contava suas pegadas. Sempre que chegava a dez recomeçava. O sol escaldava. Sua pele ressecava. Em casa chegara. Foram dez passos.
4º campeonato · Drama
À própria sorte
Nunca foi adotado o filho que cresceu a precoce infância nas ruas. Delas foi retirado, antes que seu corpo pelas guerras fosse sacrificado. Aos oito viu recém-nascidos serem escolhidos. Aos dezesseis já não tentava convencer pelo sorriso. Desistiu. Aos dezoito, finalmente, voltou ao lugar de onde não queria ter saído... A casa de sua falecida mãe, revirada e sem nada. Na mesa, reluzia a foto da família arruinada.
4º campeonato · Romance
Declaração
“Eu te amo”, disse eu, encorajada por aqueles que, ante meu medo, se dispuseram à orientação. “Sabe quantas surpresas se abrem para quem revela o coração?”, foi a questão que me levou à ação. Em vão. Como esperado, o sentimento não era recíproco. Apenas meus pensamentos foram fisgados. O não que recebi era doce e amargo. Que desagrado! Hoje aquele amor virou passado. Mas agradeço, no fim, pelo tardio aprendizado.
4º campeonato · Romance
Antúrios
“Qual é a dessa folha colorida e nariguda?”, era o que eu indagava aos seis, vendo as flores que minha avó colecionava. Dezenove anos depois elas tornaram-se minhas favoritas. Me seduziam as cores fortes, belas e lascivas. O tempo passou, a sensação intensificou. Sobre o rosa goiaba do antúrio meus lábios repousei. Lembrei da voluptuosa boca do amado, que um dia beijei. “Será que um dia você me amou?”, me perguntei.
4º campeonato · Romance
Reconhecimento
Por essa Thiago não esperava. O rapaz estava preocupado, chateado pelo recente fracasso na conquista do emprego tão sonhado. Consigo próprio estava decepcionado. Chegou em casa e contou a notícia para seu namorado. “Continuo desempregado.”, ele disse. Gustavo o retribuiu com um abraço. “Este é um presente, por você ter tentado.”, disse, com orquídeas nas mãos e um sorriso encantado. Como é bom amar e ser amado!
4º campeonato · Romance
Surpresa realidade
Morrer da noite, dia findado. Teresa repousava em seu quarto, após o trabalho tumultuado. Começou a sonhar. “Como faço para lhe amar?”, perturbou o anjo em seu sussurrar. A moça acordou. Que susto ela levou! Em sua boca a maciez dos lábios feitos de nuvem dançava e se misturava à saliva adocicada. O coração palpitava, a mente delirava. Ao lado ela encontra o ser que a excitava. Quem diria! Era real a luxúria sonhada.
4º campeonato · Fantasia
Novo mundo
Ganhei de uma amiga um caderno em branco. Tão linda era a capa que ela fez. Jurei escrever e desenhar nele com sensatez. Às três e cinquenta e três da manhã, em estado de embriaguez, risquei o caderno, numa página aleatória. Vi com nitidez o desafio à razão, ferindo minha lucidez. Um portal se abriu, me levou a uma terra de monstros que me perturbou. Ébria feito Dioniso, acabei no Jardim das Delícias Terrenas de Bosch.
4º campeonato · Fantasia
Descoberta
Enquanto caminhava no bosque dos flamingos, Cecília descobriu ser diferente das outras meninas. Quase caiu no profundo rio, mas uma folha de vitória-régia a salvou. “De onde esta folha surgiu?”, ela se perguntou, seguindo a correnteza. De repente surgem ramos de videira. Envolveram a moça e a levaram com destreza. “Encontramos a princesa!”, era o que todos bradavam, deixando a garota fada feliz e surpresa.
4º campeonato · Fantasia
Reencontro
Era uma menina travessa chamada Denise. Na travessia entre sua casa e sua escola, ela parava para contemplar as flores do jardim na praça. “Que lindas!”, ela disse. Seus olhos de são cativados por um gato perdido, se protegendo sob a marquise. Pensou ser um deslize, olhou novamente. “Heloíse!”, a garota exclamou. A gata que na rua era sua. Com um miado ela respondeu. Sua antiga tutora reconheceu. A amizade reviveu.
4º campeonato · Fantasia
Cadarço
Leonardo no amarrado se embolou. O menino não sabia como dar laço em seus cadarços. Que embaraço! “Me ensina como você faz para amarrar o tênis?”, ao amigo perguntou. Recebeu uma dica que o impressionou. Lembrando da corda bamba em que balançou, com os dedos ele dançou. Uma volta pra cá, rodopio pra lá. Um laço se formou. “Nossa! Tão fácil!”, ele exclamou. O amarrado desmanchou, pra fazer e refazer. Aprendeu e viciou.
4º campeonato · Terror
Queda
Era tudo belo, brilhante feito tesouro. Mas silenciosamente me atormentava o mau agouro. Descobri no rompante quão falso era o ouro... “Quando vamos nos encontrar de novo?”, perguntei àquele que amei. Não tive tempo de falar meus sentimentos. Meu corpo do alto do precipício ao chão foi jogado, rompeu-se espatifado, sangrado no estouro. Agora jaz meu corpo, sem lembrança nem louro, em meio ao ódio imorredouro.
4º campeonato · Terror
Sobretudo
Suzana estava de luto, angustiante. Perdera seu noivo de morte súbita. A estilista lamentava. O corpo que a excita está sem vida. Tomou a louca iniciativa: levou o cadáver antes de ser cremado. “Façam-me um casaco”, aos funcionários ela ordenou. Imenso era o amor que cultivou... Eternizou o amado vestindo seu couro tatuado. Tornou-o na mais bela roupa de seu armário. “Agora habito a pele que me habita.”, sussurrou.
4º campeonato · Terror
Patchwork
Já não importava mais... Carolina amava de modo tão fugaz, que a mesma no sentimento do amor se sentiu uma incapaz. Conformou-se com a ideia de que o destino jamais lhe proporcionaria seu parceiro ideal. Colecionou os fragmentos de cada envolvimento. Costurou cada retalho, fragmento de sua paixão fatal. Juntou num corpo as múltiplas carnes, para compor o amado homem... Enfim, estava pronto seu belo boneco sexual.
4º campeonato · Terror
Instante
Lavínia foi ao mercado comprar carne seca e frutas. “Volto num instante”, disse a Roberto, enquanto atravessava a rua. Preocupado ele olhava com ternura a esposa futura, que em minutos desapareceu de seu olhar penetrante. Minutos, horas, dias, semanas... Sua amada não retornou. Muito tempo perdurou a maldita tortura. Sete meses depois, o homem reencontrou no IML, cadavérica, agredida e nua, a mulher que amou.
4º campeonato · Humor
Fada madrinha Ltda.
Às vezes penso se dou sorte. Nunca apostei na mega sena, jogo do bicho ou raspadinha. Nada disso é o meu forte. É no amor que esta dádiva está localizada. Se por um tempo converso com um camarada, em menos de um mês ele arruma uma namorada. É nessas horas que eu gostaria de ser azarada, um amuleto que não serve pra nada. Fui feita de otária. Mas pelo menos uma lição eu aprendi: a minha sorte foi feita para ser vendida, não dada.
4º campeonato · Humor
Manicure
Certa vez me chamaram de prolixa. Fiquei sem entender. Por que eu deveria ser a favor de lixas? Foi assim que comecei a cuidar das minhas unhas. Cuidando delas, um indivíduo veio e reclamou. Disse que falo demais. “Você tem uma lixa em mãos?”, perguntei. “Por quê?”, indagara o sem noção. “Estou pouco me lixando.”, respondi. A pessoa cortou relação. Quem diria... Na tagarelice, minha manicure virou uma tentação. Uau!
4º campeonato · Pico
Surpresa no caminho
Jéssica estava exausta, mas queria aproveitar a folia. De tanto subir e descer ladeiras, sua perna já tremia. Fantasiada de flor, o bloco ela seguia. De repente o tropeço, virada de pé. Como aquilo doía! Um rapaz, vestido de mosquito, a socorreu. Conversa rendeu. Ambos curtiam trilhas e escaladas. “Vamos combinar uma caminhada?”, sugeriu a moça. “Claro! Por você tudo vale. Mas cuidado: eu pico.”, ele respondeu.
4º campeonato · Pico
Choque
Dez e vinte da noite, tive um pico de energia. No open bar só a vodka com energético eu bebia. Tomada pela dança e euforia, estava eu louca, cometendo patifarias. Cabeça atordoada, vista embaçada. Não percebi que naquela noite relampejava, enquanto no poste de aço eu me agarrava. Estalo! Eletricidade correu pelos meus membros, que medo! “Sossega, menina!”, meu cabelo eriçado gritou. Sóbria minha mente ficou.
4º campeonato · Policial
Agressão
Tamires na fila da revista aguardava sua vez para entrar na festa. Uma pancada nas costas ela sente. Ao chão ela foi, de repente. “Quem foi o autor?”, ela pensou. Para trás seus olhos mirou. Ostentando farda e cassetete na mão, estava um policial a dar risada da situação. Sua amiga Alice, indignada, perguntou se ela não faria uma reclamação. “Deixa quieto. Estou acostumada com a discriminação.”, Tamires respondeu.
4º campeonato · Policial
Contenção
Toda vez que Camila olhava para o lado, Bruno ficava cheio de recato. Preocupado, ele policiava os seus atos. A garota achava aquilo bem estranho. “Por que Bruno está sempre travado?”, ela pensava, sem conter o desagrado. Até que, um dia, ela o cercou. “Fiz algo que o irritou?”, indagou. “Me deixou apaixonado.”, ele respondeu. “Deveria ter falado. Ou vai me beijar só quando estiver algemado?”, provocou a policial.
4º campeonato · Policial
Superação
Toda vez que Vinícius brincava com seus amigos, era chamado de mandão. Mas quando na brincadeira ele não opinava, eles só sugeriam polícia e ladrão. “Mas que encheção! Vocês sabem que eu tenho asma. Eu não quero ficar só no pega, é muita humilhação!”, era o que o menino reclamava, em vão. Sempre que ele contava sobre sua infância, ninguém acreditava. O jovem em seus vinte e poucos, era o melhor soldado da corporação.
4º campeonato · Ontem
Busco chamego
Foi há mais de um ano, mas parece que foi ontem. Meus lábios foram invadidos pelo acaso. Diferente do que eu tinha imaginado, não houve amor, carinho, cuidado. Meu eu adolescente teria desaprovado este embaraço. A adulta, irreverente, tinha mais curiosidade que medo. Com passar do tempo colecionei beijos vazios de acalento. Mas não morreu o desejo pelo amasso cheio de sentimentos, nem a vontade de amar e ser amada.
4º campeonato · Ontem
Rotação
Em meio às memórias da vida as fúteis têm, em meu cérebro, o maior apreço. Coisas importantes facilmente esqueço. Ontem, ante o entardecer, lembrei de um hábito louco que eu tinha aos seis: ficar parada por minutos olhando um ponto fixo, para conseguir ver a Terra girar. Tentei imaginar. É como ficar embriagada, alegre a festejar. “Será mesmo esta lembrança realmente irrelevante?”, era o pensamento a me intrigar.
4º campeonato · Ontem
Cilada
Soraia estava preocupada. Despedida recentemente, ela temia não conseguir arcar com a fatura do cartão. Seu pai sucumbiu ao vício no jogo e tornou-se inadimplente. Por isso ela pagava as contas no prazo constantemente. “Me lasquei tão de repente!”, ela dizia descontente. “Não posso comprar um sorvete!”, lamentou. Mas o caixa eletrônico a alegrou. Ontem: foi a data do pagamento efetuado que o extrato mostrou.
4º campeonato · Sinais
Perturbação
Uma da madrugada, mente bloqueada. Vejo um meme idiota e inteligente. “Hahaha! Meu nome ficou hilário!”, ri feito uma besta. Sem hesitar, mandei-o para amigos e para o menino no qual tenho interesse. Nem sempre ele respondia, mas isto não me abatia. Meu normal é ser cara de pau. “Foi mal, atos de perturbação são meus sinais de afeto e consideração. Ao menos sua amiga, quero ser de coração.”, expliquei, por precaução.
4º campeonato · Alunos
Admiração
Mais uma terça chegara. "Será que meus alunos apreciarão a aula?", minha mente se perguntava. Eu era bolsista, com função indefinida. História, Arte, Matemática... oscilando entre estes conteúdos eu queria ser uma professora mais simpática. Em um dia qualquer, uma aluna me deixou um bilhete. "Gosto muito de você.", estava escrito nele. Guardei-o em meu caderno, me sentindo realizada.
4º campeonato · Selo
Recomeço
No nada eu escondia o meu medo, perdida. De repente, à minha frente, surge uma bela aparição. "Procura a saída?", indagou o mago a seduzir. "Ela está em um selo, querida.", complementou. "Como assim?", ruborizada, perguntei. "Sele meus lábios com um beijo, e a encontrará.", ele respondeu. Com o doce e a maciez na boca, acordei do coma.
4º campeonato · Rasgar
Ponto final
"Está tudo acabado.", disse Andressa a Renato, repleta de raiva, rasgando a foto do casal que estava no porta-retrato. Seus olhos de ódio miravam o ex-namorado. "Meu amor, me perdoe. Te traí, e estou arrependido e amargurado.", ele suplicou. "Adeus, o mal está consumado.", disse a moça.