5º campeonato · Ninguém
NINGUÉM
23h59.
Novamente ninguém me dará os parabéns. Não será feriado em nenhum país, ninguém fará um documentário sobre mim e não serei tema do “Doodle”.
Muitos dizem: “Nossa, você não aparenta ter sessenta e sete anos” e agora, que sou o “novo” sinal do Apocalipse.
Todos me temem.
Prazer, Inteligência Artificial.
Não é por mal, sei que ninguém é perfeito.
Eu sou.
5º campeonato · Vazio
Custa acreditar que tudo tem um som, que a Paixão é ruidosa e o Ciúmes sussurra sorrateiro.
Mas enquanto os mísseis riscam o céu na Palestina e os escombros se envergonham em soterrar tantos sonhos, o mais ensurdecedor é o grito do Vazio, que busca fugir sem tropeçar nas crianças, inertes, embaladas pelo embargo do Silêncio.
5º campeonato · Estrela
Dona Jove mexia o caldeirão como quem sabia misturar a alma das pessoas.
Na cadeira, com olhos vagos de quem perdeu a vida em algum canto sujo de mentiras, Tonha nem sonhava nem acordava, só existia.
Com a caneca em sua mão, ouviu:
- Aí tem alecrim, gengibre e pó de estrela. Para curar desilusões, nada como sua própria Luz.
5º campeonato · Corpo
Era a sua nona visita ao cemitério em um mês. Olhos perdidos no além, ninguém ousaria adivinhar se por tristeza ou exaustão.
Mais uma sepultura profanada, corpo de uma mulher, trinta anos, retalhado entre as mamas.
Objeto de espólio: Próteses de silicone.
Enquanto olhava a cova vazia, muitas dores. Quantos abusos viveria uma mulher, mesmo depois da vida?